Karol Digital volta ao centro de disputa judicial, mas caso recente termina a favor da influencer; entenda
A influenciadora tocantinense Maria Karollyny Campos Ferreira, conhecida nas redes sociais como Karol Digital, sofreu um novo revés na Justiça. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou recurso apresentado pela defesa e manteve em andamento a ação penal que tramita na 1ª Vara Criminal de Araguaína, no Norte do Tocantins.
A decisão foi assinada pelo ministro Ribeiro Dantas, do STJ, no dia 7 de agosto e disponibilizada nesta quinta-feira, 13. Karol Digital responde a acusações que envolvem lavagem de dinheiro, organização criminosa, crime contra a economia popular e exploração ilegal de jogos de azar, relacionadas à divulgação de plataformas de apostas on-line. As acusações ainda serão examinadas no curso da ação penal e não significam condenação definitiva.
A defesa da influenciadora buscava o trancamento da ação penal, ou seja, pretendia encerrar o processo antes do julgamento do mérito. Entre os argumentos apresentados estava a alegação de irregularidade na obtenção de um Relatório de Inteligência Financeira produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Os advogados sustentaram que o relatório teria sido solicitado pela autoridade policial sem autorização judicial e, por isso, não poderia ser utilizado como fundamento para a investigação e para as provas produzidas posteriormente.
Ribeiro Dantas não acolheu o argumento. Segundo a decisão, o relatório do Coaf foi produzido em julho de 2024, quando já existia inquérito policial formalmente instaurado. Para o ministro, não ficou demonstrada ilegalidade suficiente para invalidar o documento ou as provas derivadas dele.
A defesa também questionou a existência de justa causa para a ação penal, apontou problemas na descrição das acusações e argumentou que a regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil, por meio da Lei nº 14.790/2023, teria alterado o tratamento jurídico das condutas atribuídas à influenciadora.
Esse argumento também foi rejeitado pelo STJ.
Na avaliação do ministro Ribeiro Dantas, a regulamentação permitiu a exploração de determinadas modalidades de apostas quando observadas as autorizações e exigências estabelecidas pelo poder público, mas isso não significa que qualquer plataforma de apostas tenha passado automaticamente a funcionar de forma legal no país.
Segundo a acusação mencionada na decisão, as plataformas divulgadas pela influenciadora não teriam autorização para operar no Brasil.
Karol Digital ganhou grande projeção nas redes sociais no Tocantins, especialmente em Araguaína, onde construiu uma audiência expressiva publicando conteúdos sobre rotina, consumo e estilo de vida. A investigação sobre sua atuação envolvendo plataformas de apostas, entretanto, colocou seu nome no centro de um dos casos de maior repercussão envolvendo influenciadores digitais no estado.
De acordo com a acusação reproduzida pelo STJ, Karol teria divulgado, entre janeiro de 2019 e agosto de 2025, links relacionados a plataformas de jogos on-line não autorizadas, com destaque para o chamado Fortune Tiger, popularmente conhecido como “Jogo do Tigrinho”.
O Ministério Público sustenta que a influenciadora apresentava supostos ganhos obtidos nos jogos e divulgava as plataformas aos seguidores em troca de pagamentos publicitários e comissões relacionadas às operações realizadas pelos usuários. Essas afirmações integram a acusação e ainda precisam ser submetidas ao contraditório e à produção de provas durante o processo.
A acusação também atribui à influenciadora uma posição de liderança dentro de uma suposta organização formada por familiares e terceiros. Segundo a denúncia citada na decisão, existiria uma divisão de tarefas destinada à movimentação e à ocultação de valores provenientes das atividades investigadas.
O processo menciona movimentações por contas de pessoas físicas e jurídicas, empresas, intermediadoras de pagamentos, aquisição de veículos e imóveis e utilização de uma holding. Esses elementos são apontados pela acusação como parte da suposta estrutura utilizada para movimentar e ocultar patrimônio.
Outro dado que chama atenção na decisão é a imputação de 3.600 episódios de lavagem de capitais atribuídos a Karol Digital, conforme registrado no julgamento do recurso pelo STJ. A quantidade decorre da forma como o Ministério Público individualizou determinadas operações financeiras na denúncia.
A defesa, porém, contesta a interpretação apresentada pela acusação.
Entre os argumentos apresentados, os advogados sustentaram que valores recebidos pela influenciadora estavam relacionados a publicidade ou percentuais sobre depósitos realizados pelos usuários, e não necessariamente às perdas sofridas pelos jogadores.
Ribeiro Dantas considerou que essa discussão depende de uma análise mais aprofundada das provas e, por isso, não poderia ser resolvida por meio do pedido de encerramento antecipado da ação penal.
O caso já havia passado anteriormente pelo Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO). Em junho, a Câmara Criminal do tribunal também rejeitou habeas corpus apresentado pela defesa e manteve válida a decisão da 1ª Vara Criminal de Araguaína que recebeu a denúncia. Naquela ocasião, os desembargadores entenderam que os questionamentos deveriam ser analisados durante a instrução processual.
A discussão chegou posteriormente ao Superior Tribunal de Justiça.
Agora, com a negativa do recurso pelo ministro Ribeiro Dantas, o processo continua tramitando normalmente na Justiça tocantinense.
A decisão do STJ, entretanto, não significa que Karol Digital tenha sido considerada culpada das acusações. O tribunal analisou, neste momento, se existiam fundamentos jurídicos suficientes para anular ou encerrar antecipadamente a ação e concluiu que o processo deve continuar.
A culpa ou inocência da influenciadora será definida somente após a análise das provas, manifestações das partes e demais etapas processuais.
O caso ganhou repercussão no Tocantins desde agosto de 2025, quando Karol Digital foi presa durante uma operação policial relacionada à investigação sobre jogos de azar e lavagem de dinheiro. Posteriormente, a situação prisional da influenciadora passou por diferentes decisões judiciais e ela obteve o direito de cumprir prisão domiciliar por determinação do STJ.
As investigações também alcançaram patrimônio atribuído aos envolvidos e provocaram decisões relacionadas a veículos, imóveis e outros bens apreendidos ao longo da operação.
O entendimento mais recente do STJ mantém aberto justamente o principal processo criminal relacionado ao caso.
Para o Diário Tocantinense, o ponto central da decisão desta quinta-feira é que o Superior Tribunal de Justiça não julgou definitivamente as acusações contra Karol Digital, mas recusou o pedido da defesa para interromper o processo antes da instrução.
Com isso, a influenciadora de Araguaína continuará respondendo à ação na Justiça do Tocantins, onde o Ministério Público deverá sustentar as acusações e a defesa poderá contestar as provas e apresentar sua versão dos fatos.
O novo revés no STJ mantém, portanto, Karol Digital no centro de um dos processos de maior repercussão envolvendo apostas on-line e influenciadores digitais no Tocantins, enquanto a discussão sobre os limites da publicidade de jogos, a legalidade das plataformas e a origem das movimentações financeiras segue agora para as próximas fases da ação penal.