Sob investigação da PF, Lulinha esteve 18 vezes no Planalto desde 2023; mensagens são analisadas em apurações

Sob investigação da PF, Lulinha esteve 18 vezes no Planalto desde 2023; mensagens são analisadas em apurações
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Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 19 de agosto de 2026 18

Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve 18 registros de entrada no Palácio do Planalto entre junho de 2023 e janeiro de 2025, período que agora ganha atenção diante das investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre suspeitas de tráfico de influência e outras possíveis irregularidades. O empresário é investigado em três inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).

Conforme apuração do Diário Tocantinense (DT) a partir de registros públicos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e das informações reveladas nas investigações, as 18 entradas ocorreram em 15 dias diferentes. Somadas, as permanências de Lulinha no Palácio do Planalto chegaram a 23 horas e 26 minutos, com visitas que variaram de poucos minutos a mais de quatro horas. Os dados foram fornecidos pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.

Os registros do GSI, porém, não informam em quais dependências do Planalto Lulinha esteve nem detalham os motivos específicos de cada entrada. A existência das visitas, isoladamente, não comprova irregularidade. O interesse sobre os acessos aumentou porque mensagens que estão sendo examinadas pela Polícia Federal citam reuniões, empresários, integrantes do governo e tratativas comerciais envolvendo pessoas próximas ao filho do presidente.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República afirmou que as visitas tiveram caráter estritamente privado e não envolveram assuntos relacionados à administração pública. Segundo a Secom, os encontros não resultaram em qualquer desdobramento administrativo. A defesa de Lulinha também afirma que ele frequentava o Planalto para visitar o pai e amigos.

O cenário ganhou novos contornos com a análise de mensagens apreendidas no celular da empresária e lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e também investigada. A Polícia Federal pretende concluir a análise desse material antes de avançar para depoimentos dos investigados, e a expectativa é que Lulinha seja intimado para prestar esclarecimentos posteriormente.

Parte das conversas menciona encontros de negócios e reuniões com figuras que ocupavam posições relevantes no Governo Federal. Em uma troca de mensagens de março de 2024, Lulinha menciona reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que era chefe de gabinete do presidente Lula, e com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde.

A Polícia Federal apura se a relação entre os investigados teria sido utilizada para facilitar interesses de empresas junto ao Governo Federal. Uma das linhas da investigação envolve negociações relacionadas à comercialização de produtos à base de cannabis medicinal e possíveis tratativas com o Ministério da Saúde.

Roberta Luchsinger também manteve relação profissional com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, personagem central das investigações envolvendo fraudes contra aposentados e pensionistas. Segundo informações presentes na apuração, Roberta recebeu R$ 1,5 milhão, divididos em cinco parcelas de R$ 300 mil, em meio às tratativas para tentar viabilizar uma operação comercial envolvendo medicamentos à base de canabidiol para o Ministério da Saúde. O negócio, entretanto, não chegou a ser concretizado.

Outro elemento analisado pelos investigadores envolve uma minuta de contrato encaminhada por Roberta a Marcola. O documento tratava de uma proposta de venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde com dispensa de licitação. Marcola confirmou ter recebido o documento, mas afirmou que não o encaminhou a integrantes do governo e negou qualquer favorecimento. A negociação não prosperou.

Mensagens em poder da PF mostram ainda conversas entre Lulinha e Roberta relacionadas a negócios. Em outro diálogo revelado nas apurações, o filho do presidente teria orientado a empresária a emitir uma nota fiscal para um empresário que mantinha contratos com o Governo Federal. A Polícia Federal busca compreender o contexto dessas mensagens, a natureza da relação comercial entre os envolvidos e se houve alguma utilização indevida de influência dentro da administração pública.

As investigações não significam, por si só, que Lulinha tenha cometido os crimes sob apuração. Até o momento, os elementos integram inquéritos policiais destinados justamente a esclarecer se houve irregularidade, identificar eventuais responsabilidades e determinar a existência ou não de crimes.

Lulinha é investigado atualmente em três inquéritos no STF envolvendo suspeitas de tráfico de influência. Dois estão sob relatoria do ministro André Mendonça e outro está sob responsabilidade do ministro Flávio Dino.

A defesa do empresário rejeita qualquer associação de Lulinha a irregularidades. Os advogados afirmam que ele não mantém relação direta ou indireta com práticas ilegais, questionam a autenticidade e o contexto de mensagens divulgadas à imprensa e criticam o que classificam como vazamentos seletivos de procedimentos que tramitam sob sigilo.

Sobre as mensagens mais recentes, a defesa informou que pretende se manifestar formalmente após obter acesso integral ao material das quebras de sigilo. Os advogados também sustentam que informações retiradas de contexto não devem ser utilizadas para antecipar conclusões que cabem à investigação.

O próprio presidente Lula já se pronunciou sobre as investigações envolvendo o filho. Em entrevista concedida em agosto, disse acreditar em Lulinha, mas afirmou que não pretende impedir o andamento das apurações. Lula declarou que orientou os advogados a não buscarem o encerramento dos processos e disse que, caso seja comprovada alguma responsabilidade, o filho deverá responder por ela.

A combinação dos registros de entrada no Palácio do Planalto com as mensagens agora analisadas pela Polícia Federal aumenta a atenção sobre os três inquéritos. A questão central para os investigadores é verificar se os contatos e reuniões mencionados nas conversas permaneceram no campo das relações pessoais e empresariais ou se houve alguma atuação destinada a influenciar decisões, contratos ou agentes da administração pública.

Até a conclusão das investigações, não há decisão judicial reconhecendo culpa de Lulinha pelos fatos apurados nesses inquéritos, e as suspeitas ainda precisam passar pelo processo de investigação, eventual manifestação do Ministério Público e apreciação do Poder Judiciário.

O Diário Tocantinense (DT) acompanha os desdobramentos do caso e mantém espaço aberto para manifestação da defesa de Fábio Luís Lula da Silva, da Presidência da República, da Polícia Federal e das demais pessoas citadas nas investigações. Eventuais posicionamentos encaminhados à reportagem poderão ser acrescentados à matéria.

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