Morte do ‘Barão do Tráfico’ vira caso de Justiça: família relata suspeita de envenenamento e necropsia é determinada

Morte do ‘Barão do Tráfico’ vira caso de Justiça: família relata suspeita de envenenamento e necropsia é determinada
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 24 de agosto de 2026 29

Leonardo Dias de Mendonça, de 63 anos, conhecido nacionalmente como “Barão do Tráfico”, morreu na quinta-feira, 20 de agosto, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, encerrando uma trajetória que atravessou garimpos, fazendas, aeronaves, fronteiras internacionais, investigações da Polícia Federal e presídios de segurança máxima. O caso, porém, não terminou com a confirmação da morte. A Justiça Federal determinou necropsia, exames toxicológicos e histopatológicos depois que surgiu uma suspeita de possível envenenamento, hipótese que ainda não está comprovada.

Leonardo estava preso desde 2019 na Penitenciária Federal de Campo Grande. Ele passou mal enquanto estava sob custódia e acabou levado pelo Samu para a Unidade do Trauma da Santa Casa de Campo Grande, onde deu entrada em estado gravíssimo na segunda-feira, 17. A defesa informou que ele já apresentava queixas relacionadas à saúde nos dias anteriores. Após permanecer internado, sua morte foi confirmada na quinta-feira.

Antes da confirmação, a família chegou a divulgar uma nota para rebater informações de que Leonardo já teria sofrido morte encefálica. Na quarta-feira, 19, a advogada Ana Cláudia Alves informou que ele permanecia em estado grave e afirmou que “a família permanece em oração, com fé e esperança na recuperação”. Um dia depois, contudo, a situação teve desfecho diferente.

Depois da morte, a família enfrentou um impasse para conseguir a liberação e o traslado do corpo para Goiânia, onde Leonardo mantinha vínculos familiares. Segundo a advogada Ana Cláudia Alves, a Santa Casa teria informado por telefone à família e à defesa sobre uma suspeita de envenenamento. O problema é que essa hipótese não apareceu inicialmente na documentação entregue para o encaminhamento do corpo, provocando divergências entre o hospital, o Serviço de Verificação de Óbito e o Instituto de Medicina e Odontologia Legal.

Diante das dúvidas, o juiz federal Luiz Fiorentini determinou que o caso fosse investigado. A ordem incluiu necropsia, exames toxicológicos, análise de tecidos, inspeção extraordinária na Penitenciária Federal de Campo Grande e preservação das imagens das câmeras internas referentes ao período considerado relevante para a apuração. O objetivo é reconstruir o que aconteceu antes da internação e verificar também como foi prestada a assistência médica enquanto Leonardo permanecia sob custódia.

Em nota, Ana Cláudia Alves afirmou que as providências eram “indispensáveis para assegurar uma apuração técnica, independente e completa” sobre a morte de uma pessoa que estava sob responsabilidade do Estado. A defesa também quer esclarecer o intervalo entre os primeiros problemas de saúde relatados e a transferência para o hospital. Até que os resultados periciais sejam conhecidos, não há confirmação de envenenamento nem conclusão de eventual negligência no atendimento.

O corpo acabou sendo liberado no sábado, 22, após a intervenção da Justiça, permitindo à família organizar o traslado para Goiânia. A liberação física do corpo, entretanto, não encerrou a investigação sobre a causa da morte, que depende principalmente dos resultados dos exames determinados judicialmente.

A história de Leonardo começou muito antes de ele se tornar um dos nomes mais conhecidos das investigações sobre narcotráfico no Brasil. Nascido em Minas Gerais e criado em Goiânia, ele se mudou em 1982 para Tucumã, no sul do Pará. Reportagem da época relata que começou a vida profissional vendendo cachaça em garimpos e depois abriu uma loja de materiais destinados aos garimpeiros. Mais tarde, expandiu as atividades comerciais para Roraima, Venezuela e Guiana.

Essa ligação com o garimpo e com a Amazônia colocaria Leonardo em uma região onde pistas de pouso, pequenas aeronaves e extensas áreas rurais desempenhavam papel central na mobilidade entre cidades e países. Anos depois, as autoridades passariam a apontar justamente o conhecimento dessas rotas como uma das principais características da organização atribuída a ele.

São Félix do Xingu, no Pará, tornou-se um dos pontos mais importantes dessa trajetória. Documento da própria Polícia Federal registra que, em 1999, o piloto Osmar Anastácio foi preso no município enquanto aguardava uma aeronave que transportaria cocaína da Colômbia para o Suriname. Conforme o relatório policial, o depoimento do piloto contribuiu para que Leonardo fosse preso no final daquele ano.

A relação com São Félix do Xingu ia além das investigações envolvendo aeronaves. O Ministério Público Federal já registrava, nos anos 2000, que Leonardo circulava pelo município e também por Tucumã. O procurador Ubiratan Cazetta afirmou à época que era de conhecimento do MPF que Leonardo frequentava São Félix havia anos e chegou a promover rodeios na região.

Propriedades rurais ligadas às investigações também estavam espalhadas por São Félix do Xingu. Entre os bens sequestrados judicialmente aparecem a Fazenda Paranaíba, a Fazenda Rio das Lages ou Belauto e a Estância Toca do Nelore. Um edital judicial referente à Toca do Nelore descreveu uma propriedade rural com áreas de pastagem, casas, divisórias para criação de animais e outras benfeitorias.

O Tocantins também aparece formalmente na história das investigações. O relatório da CPI do Narcotráfico da Assembleia Legislativa registrou que a Operação Diamante havia revelado “a presença e a atuação” de Leonardo Dias de Mendonça no Estado e mencionou contatos que, de acordo com as apurações da época, permitiriam trânsito de drogas, negócios e possíveis operações de lavagem de dinheiro. Trata-se de registro produzido dentro de uma investigação parlamentar e, portanto, deve ser compreendido dentro desse contexto.

Em Colinas do Tocantins, a morte de Leonardo despertou atenção especial porque relatos locais publicados após o falecimento afirmam que ele teria morado no município durante períodos das décadas de 1990 e 2000. Essa suposta passagem por Colinas deve ser tratada com cautela: há relatos locais sobre a residência, mas não foi localizado até agora um documento oficial que permita precisar exatamente em quais anos viveu na cidade, por quanto tempo ou quais atividades desenvolveu ali. O que está documentalmente comprovado é que investigações da época identificaram presença e conexões de Leonardo dentro do Tocantins.

Foi a partir do final dos anos 1990 e, principalmente, no início dos anos 2000 que o nome de Leonardo ganhou projeção nacional. Segundo a Polícia Federal, a estrutura comandada por ele tinha capacidade para movimentar grandes carregamentos de cocaína e mantinha ramificações no Brasil e no exterior. A Operação Diamante, deflagrada pela PF, colocou Leonardo definitivamente entre os nomes de maior destaque do narcotráfico internacional investigado naquele período.

A rede atribuída ao grupo alcançava Colômbia, Peru, Suriname, Venezuela e Holanda. Leonardo chegou a integrar lista internacional de procurados e foi apontado como antigo aliado de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Investigações também atribuíram a ele negociações relacionadas às Farc, então guerrilha colombiana, além de uma estrutura que utilizava aeronaves para movimentar cocaína através das fronteiras.

Em uma das investigações mais conhecidas, Leonardo foi condenado em processo relacionado a 327 quilos de cocaína encontrados em uma aeronave em Cocalinho, Mato Grosso, em 1999. A condenação foi de 23 anos e quatro meses de prisão. Posteriormente, outras condenações fariam com que as penas acumuladas ultrapassassem 39 anos.

A dimensão econômica atribuída à organização também impressionava os investigadores. Em 2002, a Polícia Federal estimava que seria necessário abrir aproximadamente cem inquéritos paralelos para rastrear a movimentação financeira e os chamados “laranjas” utilizados pela estrutura. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo daquele período, os investigadores sequer conseguiam estabelecer com exatidão o patrimônio efetivo de Leonardo porque parte dos bens estaria registrada em nome de terceiros.

Por isso, falar em uma fortuna pessoal exata de Leonardo exige cautela. Não há um valor oficial consolidado que permita afirmar quanto ele possuía. O que existem são registros de fazendas, imóveis, gado, aeronaves, empresas e outros bens que foram investigados ou sequestrados judicialmente, além de cifras milionárias relacionadas às operações criminosas atribuídas ao grupo. Movimentação financeira de uma organização não significa, automaticamente, patrimônio pessoal de seu líder.

Um exemplo da dimensão das negociações apareceu nas investigações de 2002. Segundo a Polícia Federal, Leonardo e o irmão teriam acertado a venda de três toneladas de cocaína a um traficante venezuelano pelo valor estimado de US$ 25 mil por quilo. Se executada integralmente nas condições descritas pelos investigadores, a negociação representaria cerca de US$ 75 milhões em valor bruto. Isso não significa que Leonardo possuísse US$ 75 milhões, mas revela o tamanho das operações que as autoridades atribuíam à organização.

A PF também rastreou uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 milhão envolvendo Leonardo e Fernandinho Beira-Mar, relacionada a encomendas de drogas. Segundo o Ministério Público Federal, terras e rebanhos eram utilizados como formas de movimentar ou lavar dinheiro. Decisões judiciais posteriores determinaram a administração e alienação de diversas propriedades sequestradas durante os processos.

Leonardo passou por diferentes fases dentro do sistema penitenciário brasileiro. Ficou preso em Goiás e, em 2009, foi transferido da carceragem da Polícia Federal em Goiânia para a Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Naquele momento, a PF sustentava que mesmo preso ele ainda mantinha influência sobre uma organização com ramificações internacionais.

Depois de anos de cumprimento de pena, conseguiu progressão para o regime semiaberto e passou a utilizar tornozeleira eletrônica em 2018. A liberdade durou pouco. Em setembro de 2019, Leonardo voltou a ser preso durante uma operação da Polícia Federal que investigava novamente tráfico internacional de cocaína com uso de aeronaves. Documentos judiciais daquele caso apontaram Leonardo como líder e financiador de uma nova organização investigada por transportar grandes carregamentos de cocaína e enviá-los inclusive para a Europa.

Foi após essa nova prisão que Leonardo passou a permanecer na Penitenciária Federal de Campo Grande, unidade de segurança máxima onde estava custodiado quando passou mal em agosto de 2026. Assim, a trajetória que começou nos garimpos do Norte, passou por Goiânia, São Félix do Xingu, Tucumã, diferentes pontos do Tocantins e rotas internacionais terminou dentro do sistema penitenciário federal em Mato Grosso do Sul.

Agora, quase três décadas depois das primeiras grandes investigações, a atenção das autoridades se volta não para as rotas de cocaína ou para o patrimônio atribuído a Leonardo, mas para suas últimas horas de vida. A Justiça quer saber quando surgiram os primeiros sintomas, qual atendimento foi prestado dentro da penitenciária, por que houve suspeita de envenenamento, o que mostram as câmeras internas e o que os exames encontraram no organismo do detento.

A família e os advogados aguardam os laudos. Até a conclusão da perícia, a causa da morte não deve ser associada definitivamente a envenenamento. O que existe, neste momento, é uma suspeita que ganhou relevância suficiente para provocar uma ordem judicial, exames toxicológicos, necropsia e uma inspeção extraordinária no presídio.

Leonardo Dias de Mendonça morreu aos 63 anos carregando um dos apelidos mais conhecidos da história recente do narcotráfico brasileiro. De uma juventude ligada aos garimpos à circulação por São Félix do Xingu, das conexões investigadas no Tocantins aos relatos de uma passagem por Colinas, das fazendas e aviões às rotas que chegaram à Colômbia, Suriname e Europa, sua história atravessou diferentes regiões e sucessivas operações policiais. A última investigação, porém, não procura saber como funcionava sua organização. Procura responder como morreu o homem que durante décadas ficou conhecido como o “Barão do Tráfico”.

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