Bastidor: Sem celulares e com recado direto: Wanderlei cobra alinhamento e mira primeiro e segundo escalões do Governo
Uma reunião reservada, sem celulares e longe das câmeras, colocou o governador Wanderlei Barbosa no centro de uma movimentação que vai muito além da campanha eleitoral. O Diário Tocantinense apurou que o encontro com integrantes do primeiro escalão teve como principal objetivo reforçar o comando político do governador sobre sua própria base e cobrar maior alinhamento daqueles que ocupam espaços estratégicos dentro da administração estadual.
A senadora Professora Dorinha Seabra participou da reunião, mas, segundo apuração do DT, o movimento foi conduzido principalmente por Wanderlei. O governador deixou claro aos auxiliares que espera uma atuação mais firme do grupo político que ajudou a construir sua gestão e que possui influência direta sobre prefeitos, vereadores e lideranças espalhadas pelas diferentes regiões do Tocantins.
Nos bastidores, o encontro foi interpretado menos como uma apresentação de candidatura e mais como um recado interno do próprio Wanderlei: quem ocupa espaço político dentro de seu Governo terá de deixar claro até que ponto continua caminhando com o projeto comandado pelo governador.
O pedido para que os celulares não permanecessem no ambiente também chamou atenção. A medida reforçou o caráter reservado da conversa e a intenção de permitir uma discussão política mais aberta entre o governador e seus principais auxiliares.
Wanderlei falou sobre a força que seu grupo possui nos municípios e cobrou maior envolvimento político de integrantes da administração. O entendimento apresentado na reunião é de que secretários e dirigentes não são apenas gestores de suas respectivas áreas. Muitos possuem ligações históricas com prefeitos, vereadores, deputados e lideranças regionais e, por isso, representam peças importantes na sustentação política construída pelo governador.
O problema é que essa estrutura não necessariamente está completamente alinhada.
O Diário Tocantinense apurou que há incômodo, nos bastidores, com chefes de pastas que aparecem em fotografias, solenidades e agendas institucionais ao lado de Wanderlei, mas que, fora do horário de expediente e dentro dos limites permitidos pela legislação eleitoral, praticamente não desenvolvem qualquer trabalho político em defesa do grupo ao qual estão vinculados.
São auxiliares que mantêm presença institucional, ocupam posições estratégicas e aparecem ao lado do governador em eventos oficiais, mas que, na avaliação de interlocutores da base, não transformam essa proximidade administrativa em articulação política efetiva quando estão fora do exercício da função pública.
A situação é ainda mais sensível porque, conforme relatos colhidos pelo DT nos bastidores, há integrantes ligados à estrutura governamental que não apenas demonstram pouca disposição para trabalhar politicamente pelo grupo de Wanderlei, como chegam a manifestar apoio ou defender candidaturas ao Senado vinculadas a outro campo político. Esse é um dos pontos que mais provoca questionamentos dentro da base.
A avaliação de aliados é de que existe uma diferença significativa entre um gestor simplesmente optar por não atuar politicamente e alguém que ocupa um espaço de confiança dentro da administração estadual, mas, fora do expediente, utiliza sua influência política para defender candidato pertencente a um grupo adversário.
Até o momento, o Diário Tocantinense não atribui essa conduta individualmente a qualquer integrante do Governo sem a devida comprovação. O ponto apurado é que a existência de situações dessa natureza passou a ser discutida reservadamente entre aliados e aumentou a pressão por um levantamento mais profundo do primeiro e do segundo escalões.
Na prática, há chefes de pastas que aparecem nas fotos, mas pouco aparecem na organização política.
Outros não fazem reuniões, não articulam lideranças, não percorrem municípios e não demonstram, fora do expediente, o mesmo nível de envolvimento político que a proximidade com o governador sugere.
E, segundo interlocutores ouvidos pelo DT, existem ainda situações consideradas mais delicadas: pessoas acomodadas politicamente dentro do Governo que estariam defendendo candidatos de outro grupo eleitoral.
Se isso for confirmado caso a caso, Wanderlei terá um problema que não poderá ser resolvido apenas com reuniões. A cobrança não é para que servidores ou gestores utilizem estrutura pública em campanha, o que seria irregular. O ponto político é completamente diferente. Ocupantes de cargos de confiança possuem vida partidária e relações políticas próprias fora do expediente, mas também ocupam posições que muitas vezes nasceram de uma relação direta de confiança com o grupo que governa.
É justamente essa confiança que começa a ser colocada à prova. Se o governador está assumindo pessoalmente a articulação do projeto de seu grupo, percorrendo municípios e pedindo empenho de aliados, torna-se inevitável perguntar como permanecerão aqueles que estão administrativamente dentro do Governo, mas politicamente trabalham em direção distinta.
É aí que surge um dos maiores desafios de Wanderlei Barbosa nesta fase da eleição. O Governo do Tocantins possui uma composição ampla, construída a partir de diferentes alianças partidárias, municipais e parlamentares. Além dos secretários, existe uma extensa cadeia formada por subsecretários, superintendentes, presidentes e vice-presidentes de autarquias, diretores, assessores e ocupantes de cargos de confiança que chegaram ao Executivo através de diversos grupos políticos.
Parte desses grupos mudou de posição ao longo do processo eleitoral. Com adversários do Palácio formando suas próprias chapas e atraindo antigos aliados, Wanderlei precisará identificar até onde a estrutura política que hoje ocupa espaços dentro de sua administração ainda acompanha efetivamente sua liderança.
A avaliação feita nos bastidores é simples: não adianta cobrar fidelidade política apenas de prefeitos, vereadores e lideranças municipais se dentro do primeiro e, principalmente, do segundo escalão ainda existirem indicações ligadas a grupos adversários, auxiliares politicamente inertes ou pessoas que chegam ao ponto de defender candidaturas de outro campo enquanto continuam ocupando espaços de confiança no Executivo.
O Diário Tocantinense apurou que essa questão começa a ganhar peso nas conversas envolvendo a base governista.
Não há, neste momento, informação de uma exoneração coletiva ou de uma reforma ampla já definida. O que existe é uma cobrança crescente para que Wanderlei faça uma leitura detalhada de quem continua politicamente dentro de seu grupo, quem apenas permanece administrativamente no Governo e quem já fez uma escolha eleitoral diferente.
Esse levantamento tende a atingir com mais força o segundo escalão.
Os secretários são figuras públicas, possuem maior exposição e suas posições políticas costumam ser conhecidas. No segundo escalão, a situação é mais complexa. Existem cargos ocupados por indicações de deputados, prefeitos, ex-prefeitos e lideranças que, em alguns casos, seguiram caminhos eleitorais diferentes daquele estabelecido pelo governador.
Por isso, o desafio de Wanderlei agora é também interno. Antes de mobilizar toda a força política de seu grupo nos municípios, o governador precisa saber quem realmente está com ele. Antes de cobrar presença política de sua base, precisa verificar se os ocupantes de cargos estratégicos continuam pertencendo ao mesmo projeto.
E antes de pedir unidade nas ruas, poderá ter de promover unidade dentro da própria estrutura administrativa e política que construiu. O cientista político Sérgio Abranches, conhecido pela formulação do conceito de presidencialismo de coalizão, demonstra em seus estudos que governos formados por alianças amplas precisam de capacidade permanente de coordenação. Não basta reunir diferentes forças para governar; é necessário administrar interesses que, ao longo do tempo, podem começar a seguir caminhos diferentes.
A mesma lógica ajuda a compreender o cenário estadual. Quanto maior a quantidade de grupos contemplados dentro de uma administração, maior pode ser a dificuldade de manter todos politicamente alinhados quando chega uma eleição sucessória.
O cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas, também analisa que coalizões políticas envolvem divisão de espaços, interesses e participação no governo. Quando as alianças mudam, o chefe do Executivo precisa avaliar se a composição administrativa ainda corresponde à base política que efetivamente possui.
É exatamente esse teste que Wanderlei começa a enfrentar.
Durante boa parte de sua gestão, o governador conseguiu manter ao redor do Palácio uma extensa rede de apoio político. Prefeitos, vereadores, deputados e diferentes grupos participaram da construção dessa base. Agora, com a eleição em andamento, essas alianças precisam ser novamente medidas.
A fotografia política de um governo no início do mandato dificilmente permanece intacta até o final. Aliados mudam de posição.
Deputados seguem projetos próprios. Prefeitos fazem novas escolhas. Grupos municipais se reorganizam.E indicações feitas anos atrás podem permanecer dentro da administração mesmo depois de seus padrinhos políticos migrarem para outro lado.
Há ainda uma situação potencialmente mais incômoda: alguém permanecer dentro da estrutura do Governo e, politicamente, defender uma candidatura de um campo adversário. Para parte dos aliados ouvidos pelo DT, esse é justamente o tipo de contradição que Wanderlei precisará enfrentar. O governador tem a caneta. É ele quem nomeia.É ele quem exonera. É ele quem define seu primeiro escalão e avaliza boa parte das principais composições políticas existentes no segundo.
Por isso, depois de reunir os auxiliares e cobrar comprometimento, a expectativa se volta para o que Wanderlei fará diante daqueles que não responderem politicamente ao chamado.
Não se trata de transformar a administração estadual em comitê eleitoral. Governo e campanha precisam permanecer separados, e qualquer uso da máquina pública para finalidade eleitoral é proibido.
Mas, no campo estritamente político e fora do expediente, a discussão é outra: até que ponto um ocupante de cargo de confiança pode continuar representando politicamente um governo enquanto trabalha pela vitória de um projeto adversário? Essa pergunta começa a circular com mais força nos bastidores.
A reunião sem celulares mostrou que Wanderlei quer assumir pessoalmente o comando de sua base. Agora, o maior desafio pode ser olhar para dentro da própria estrutura.
Porque há uma diferença enorme entre aparecer ao lado do governador em uma fotografia oficial e estar politicamente ao lado dele quando termina o expediente.E, se houver integrantes do primeiro ou segundo escalão defendendo abertamente candidatos de outro campo, Wanderlei terá de decidir quanto tempo pretende conviver com essa contradição.
O encontro reservado foi o recado. A próxima movimentação mostrará se haverá apenas cobrança — ou mudança nas peças do Governo.