Nepal luta pela sobrevivência após catástrofe no Himalaia: geleira, clima e risco de nova tragédia desafiam autoridades
Em questão de minutos, gelo, pedras, lama e uma quantidade gigantesca de água desceram das montanhas do Himalaia e transformaram comunidades inteiras em uma zona de destruição. O Nepal enfrenta nesta quinta-feira, 27 de agosto, uma das maiores tragédias naturais recentes da região, enquanto equipes de resgate correm contra o tempo para encontrar sobreviventes e cientistas tentam reconstruir a sequência de acontecimentos que provocou a catástrofe na fronteira com o Tibete.
O número de vítimas continua mudando à medida que as equipes conseguem alcançar áreas antes isoladas. Na atualização mais recente acompanhada pelo Diário Tocantinense, a Reuters informou que a imprensa local já contabilizava 359 mortos e que mais de mil pessoas permaneciam desaparecidas no Nepal e na região chinesa do Tibete. Centenas de estrangeiros estão entre aqueles ainda sem localização confirmada.
A dimensão real da tragédia ainda pode aumentar. Estradas desapareceram, pontes foram destruídas, povoados ficaram isolados e rios carregaram corpos por dezenas de quilômetros. Em algumas áreas, helicópteros se tornaram praticamente a única forma de levar alimentos, barracas e outros suprimentos para comunidades completamente separadas do restante do país.
O que inicialmente chegou a ser tratado como uma possível consequência de um terremoto agora é analisado de maneira diferente pelos cientistas. As primeiras informações apontavam para um tremor de magnitude 4,4 pouco antes da enchente. Posteriormente, porém, o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, revisou a avaliação e concluiu que o sinal registrado pelos equipamentos provavelmente não correspondia a um terremoto tectônico tradicional.
Segundo o USGS, a energia sísmica detectada foi provocada pelo próprio colapso de uma enorme quantidade de gelo e rocha e pelo movimento de detritos que se seguiu. Ou seja, o que os instrumentos inicialmente interpretaram como um abalo sísmico pode ter sido, na realidade, a assinatura da própria montanha desabando.
Essa mudança de interpretação ajuda a explicar por que o desastre surpreendeu autoridades e moradores. Não havia, naquele momento, uma chuva extrema diretamente sobre parte da região atingida que permitisse prever uma enchente daquela dimensão.
Imagens de satélite analisadas por especialistas indicam que uma parte significativa da extremidade inferior de uma geleira se desprendeu a aproximadamente 5.200 metros de altitude. A massa teria despencado cerca de 1.200 metros até o fundo do vale, acumulando rochas e sedimentos durante a queda.
A avalanche de gelo e rochas atingiu o sistema do rio Lhende, no lado tibetano, a aproximadamente 20 quilômetros da fronteira entre Nepal e China. O material bloqueou temporariamente o curso da água e criou uma espécie de barragem natural.
Quando essa barreira não conseguiu mais suportar a pressão, a água represada rompeu caminho montanha abaixo.
O resultado foi uma onda extremamente rápida de água, pedras, gelo, lama e sedimentos atingindo comunidades que praticamente não tiveram tempo para reagir.
Um geólogo do governo chinês citado pela Reuters estimou que o fluxo de detritos chegou a se deslocar a aproximadamente 50 metros por segundo e percorreu mais de 20 quilômetros na etapa inicial do desastre. Uma velocidade dessa magnitude ajuda a entender por que casas, veículos, estradas, instalações e pessoas foram arrastados praticamente instantaneamente.
No Brasil, o episódio também passou a ser analisado por especialistas em sismologia.
O sismólogo José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo, explicou que uma avalanche de grandes dimensões também produz ondas que podem ser captadas pelos equipamentos destinados ao monitoramento de terremotos.
Ao comentar a revisão sobre a origem do sinal registrado no Nepal, Nogueira explicou: “a avalanche também propaga ondas que podem ser confundidas com as de um terremoto”.
A observação do especialista da USP é importante porque ajuda a compreender a mudança ocorrida entre as primeiras horas da tragédia e as análises posteriores.
Antes da revisão do USGS, Nogueira havia trabalhado com a hipótese inicial de que um terremoto raso de magnitude 4,4 pudesse ter funcionado como gatilho para um deslizamento. Segundo ele, em regiões montanhosas, mesmo um tremor relativamente moderado pode desestabilizar terrenos, gelo ou encostas já fragilizadas.
Com os novos dados apresentados posteriormente pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, ganhou força outra explicação: o próprio movimento colossal de gelo, rochas e sedimentos teria produzido o sinal sísmico registrado.
Isso não significa que os cientistas já conheçam todos os detalhes da tragédia.
A origem exata da ruptura inicial ainda está sendo estudada. Especialistas trabalham para determinar por que aquela porção da geleira perdeu estabilidade justamente naquele momento e quais fatores contribuíram para transformar o colapso inicial em uma cadeia de eventos tão destrutiva.
É nesse ponto que as mudanças climáticas entram na investigação.
Cientistas ouvidos pela Reuters alertam que não é possível, neste momento, afirmar que o aquecimento global foi a única causa direta da catástrofe. No entanto, existe uma preocupação crescente com a influência do aumento das temperaturas sobre geleiras, encostas e áreas de alta montanha.
O aquecimento pode reduzir o suporte fornecido pelo gelo a encostas extremamente íngremes, aumentar a quantidade de água proveniente do derretimento e modificar ciclos de congelamento e descongelamento. Esses processos, juntos, podem enfraquecer montanhas e tornar grandes colapsos mais prováveis em determinados locais.
O cientista Simon Cox, da Earth Sciences New Zealand, resumiu a preocupação ao afirmar que as mudanças climáticas estão criando condições capazes de desestabilizar gelo e rochas nas altas montanhas. Segundo ele, esse cenário pode favorecer eventos em cascata semelhantes ao registrado agora no Himalaia.
O Nepal está particularmente exposto.
A Cordilheira do Himalaia reúne algumas das montanhas mais altas do planeta, enormes massas de gelo, encostas inclinadas e uma complexa rede de rios. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas vivem em vales abaixo dessas estruturas naturais ou dependem das águas provenientes das montanhas.
Quando uma geleira, lago glacial ou encosta sofre ruptura, a distância entre o início do evento e uma comunidade localizada mais abaixo pode ser percorrida em poucos minutos.
É por isso que cientistas classificam algumas dessas ocorrências como eventos em cascata.
Uma geleira pode perder estabilidade, provocar uma avalanche, represar um rio, formar uma barragem natural, romper essa barreira e produzir uma enchente repentina. Ao descer pelo vale, a água incorpora mais pedras, terra, árvores e estruturas destruídas, aumentando ainda mais sua capacidade de devastação.
Foi uma combinação semelhante que aparentemente aconteceu entre o Tibete e o Nepal.
A preocupação agora é que a primeira tragédia não seja o fim do problema.
Autoridades chinesas identificaram um novo lago represado naturalmente em Gyirong, acima da região já atingida. Na manhã desta quinta-feira, o volume era estimado em aproximadamente 2 milhões de metros cúbicos de água.
A previsão é de que outros 3 milhões de metros cúbicos possam chegar ao local nos próximos dias, especialmente com a possibilidade de chuva. Isso corresponde a aproximadamente 1.200 piscinas olímpicas adicionais entrando no sistema.
O risco é de rompimento dessa nova barreira natural.
Caso isso aconteça, outra onda de água e detritos poderá descer pelo mesmo sistema de vales já devastado pelo primeiro desastre.
As autoridades mantêm áreas próximas aos rios sob alerta e trabalham para afastar moradores e equipes de locais considerados vulneráveis.
O perigo também dificulta as buscas.
Cada equipe enviada para localizar desaparecidos precisa avaliar não somente o terreno destruído pela primeira enchente, mas a possibilidade de novos deslizamentos, novas rupturas e súbitas mudanças no nível dos rios.
A Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal, órgão equivalente à estrutura de Defesa Civil para grandes catástrofes, passou a reunir informações sobre militares, policiais, moradores e turistas desaparecidos.
Dados divulgados durante esta quinta-feira indicaram centenas de turistas sem contato, além de integrantes do Exército do Nepal, policiais e agentes das forças de segurança que estavam na região quando a enchente atingiu os vales.
A tragédia possui também uma dimensão internacional porque a região é frequentada por turistas, montanhistas e peregrinos de dezenas de países.
Entre os estrangeiros que estavam sem localização confirmada aparecem cidadãos da Índia, Estados Unidos, Malásia, Austrália, Reino Unido, Canadá, Ucrânia e outras nacionalidades.
A região atingida fica próxima de importantes rotas utilizadas por peregrinos que viajam em direção ao Monte Kailash e ao Lago Mansarovar, considerados sagrados por diferentes tradições religiosas.
Somente entre os indianos, centenas chegaram a aparecer inicialmente como sem contato. Parte deles foi posteriormente localizada com vida.
O cenário permanece especialmente grave no entorno de Trishuli e de localidades do distrito de Nuwakot.
Imagens aéreas mostram terrenos inteiros cobertos por lama. Onde existiam construções, estradas e pequenos povoados, em alguns pontos restaram apenas grandes superfícies marrons formadas pelos sedimentos carregados pela correnteza.
No distrito de Chitwan, a aproximadamente 100 quilômetros das áreas mais duramente atingidas, autoridades chegaram a recuperar mais de uma centena de corpos transportados pelo sistema de rios. O número demonstra a força e o alcance da correnteza.
Hospitais também enfrentam pressão.
Em alguns locais, o número de corpos recuperados ultrapassou a capacidade normal das estruturas disponíveis e autoridades precisaram organizar espaços temporários para identificação e entrega às famílias.
Para quem sobreviveu, começa agora outra emergência.
Milhares de pessoas perderam casas, alimentos, roupas, documentos e meios de subsistência. Povoados ficaram sem comunicação e estruturas básicas de transporte desapareceram.
O Nepal mobilizou Exército, polícia e equipes especializadas, enquanto helicópteros fazem voos em regiões onde veículos não conseguem mais chegar.
A China também mobilizou operações de busca no lado tibetano e passou a monitorar a nova represa natural que ameaça romper.
Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e organismos internacionais anunciaram ou ofereceram ajuda, enquanto a Cruz Vermelha trabalha no atendimento às comunidades atingidas.
A dimensão do desastre reacende ainda um debate antigo sobre a vulnerabilidade do Himalaia diante das mudanças ambientais.
Dados citados por especialistas indicam que as montanhas cobertas de neve e gelo do Nepal perderam uma parcela significativa de sua cobertura nas últimas décadas. A Organização das Nações Unidas já havia alertado que as geleiras nepalesas passaram a derreter em ritmo muito mais rápido nos anos recentes.
Isso não permite concluir automaticamente que cada avalanche seja provocada pelo aquecimento global.
A própria ciência faz essa distinção.
O sismólogo José Alexandre Nogueira, da USP, ressalta que mudanças climáticas não possuem energia para alterar diretamente a dinâmica interna da Terra e gerar terremotos tectônicos. Por outro lado, alterações climáticas podem influenciar enchentes, derretimento de gelo, estabilidade de encostas e outros processos que acontecem na superfície.
São fenômenos diferentes que, em determinadas circunstâncias, podem interagir.
É justamente essa interação que cientistas agora tentam reconstruir no Nepal.
O que se sabe até aqui é que uma enorme massa de gelo e rochas perdeu estabilidade em grande altitude, despencou pela montanha, atingiu um rio e desencadeou uma sucessão de eventos capaz de destruir comunidades a dezenas de quilômetros de distância.
O sinal sísmico registrado inicialmente como terremoto agora é interpretado pelo USGS como resultado desse gigantesco movimento de massa.
O que ainda não está totalmente esclarecido é por que a ruptura inicial aconteceu e qual foi o peso individual de fatores como derretimento do gelo, temperatura, água acumulada, estrutura das rochas e instabilidade das encostas. Enquanto os cientistas procuram essas respostas, o Nepal enfrenta uma emergência muito mais imediata.
Encontrar sobreviventes. Localizar os desaparecidos. Levar comida e abrigo às áreas isoladas. Monitorar os rios.
E impedir que uma segunda onda de água transforme uma tragédia já histórica em um desastre ainda maior.
A paisagem que ficou para trás dá a dimensão do desafio. Estradas sumiram, pontes foram arrancadas e comunidades inteiras foram cobertas por lama.
Em questão de minutos, gelo, pedras e água desceram das montanhas e transformaram comunidades inteiras em uma zona de desastre. Agora, cientistas tentam explicar por que aconteceu — e se pode acontecer novamente.
E, enquanto a resposta definitiva ainda é construída pela ciência, milhões de pessoas que vivem nos vales do Himalaia encaram uma realidade cada vez mais urgente: em uma região onde gelo, montanhas, rios e clima estão profundamente conectados, uma ruptura ocorrida a milhares de metros de altitude pode se transformar, poucos minutos depois, em uma catástrofe para quem vive muito abaixo.