Augusto Cury explode no Google após debate e tenta ocupar vácuo da terceira via; entenda o que está por trás das buscas
De escritor conhecido por milhões de brasileiros a uma das maiores curiosidades da eleição presidencial de 2026. Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, conseguiu depois do primeiro debate presidencial da Band algo que ainda não havia alcançado nas pesquisas eleitorais: colocar seu nome no centro da atenção digital do país.
O fenômeno apareceu primeiro durante o debate realizado no domingo, 23 de agosto. Dados divulgados pela Sala Digital da Band, em parceria com o Google, mostraram Augusto Cury liderando as pesquisas relacionadas aos candidatos enquanto o programa estava no ar. O interesse não desapareceu imediatamente com o fim da transmissão e continuou produzindo buscas nos dias seguintes.
Nesta quinta-feira, 27 de agosto, o Google Trends voltou a colocar o candidato entre os assuntos em alta no Brasil. A consulta “Augusto Cury é de esquerda ou direita” ultrapassou 10 mil pesquisas e apresentava crescimento próximo de 900%. Entre as buscas relacionadas também apareciam “Augusto Cury pesquisa” e “Augusto Cury partido”.
Os dados ajudam a explicar o fenômeno. Uma parcela expressiva do público conhece Augusto Cury como escritor, psiquiatra e autor de livros de desenvolvimento humano, educação e comportamento, mas ainda tenta descobrir quem é o Augusto Cury político.
Essa diferença entre reconhecimento pessoal e conhecimento eleitoral pode ter sido justamente o combustível para o salto no Google.
O primeiro fator foi a própria confusão que antecedeu o debate da Band. Cury chegou à sede da emissora afirmando que não participaria do encontro em protesto contra as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, dois dos principais candidatos da disputa presidencial. Minutos depois, voltou atrás e decidiu entrar no estúdio após conversar com o jornalista Fernando Mitre.
A reviravolta gerou imediatamente uma pergunta simples no público: afinal, quem é Augusto Cury e o que ele está fazendo em uma eleição presidencial?
O segundo fator foi o esvaziamento do próprio debate. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não participaram. No palco ficaram apenas Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos. Isso aumentou significativamente o tempo de exposição dos três candidatos presentes e ofereceu a nomes ainda distantes da liderança das pesquisas uma vitrine nacional que dificilmente teriam com todos os principais concorrentes no estúdio.
Cury aproveitou esse espaço adotando uma estratégia diferente dos confrontos mais agressivos registrados durante a noite.
Enquanto Renan Santos apostou em ataques duros e Caiado explorou sua experiência administrativa, Augusto Cury tentou construir a imagem de candidato moderador. Falou de educação, saúde emocional, segurança, economia, agronegócio e relações internacionais, mas insistiu principalmente em críticas à polarização entre os principais campos políticos do país.
É aí que surge a discussão sobre uma possível terceira via.
Cury ainda não é, numericamente, uma terceira via competitiva nas pesquisas de intenção de voto. Levantamentos recentes do Datafolha e do BTG/Nexus colocam o candidato do Avante com aproximadamente 2% das intenções de voto. Lula e Flávio Bolsonaro continuam muito distantes dos demais concorrentes.
Mas existe uma diferença entre ser terceira via nas pesquisas e ocupar, durante alguns dias, o espaço simbólico de candidato que tenta escapar da polarização.
Foi exatamente nesse segundo terreno que Augusto Cury conseguiu avançar.
Ao invés de tentar competir com Lula ou Flávio Bolsonaro utilizando o mesmo tipo de discurso, Cury procurou se apresentar como alguém exterior ao confronto tradicional. A ideia de pacificação, a crítica à “polarização burra”, a utilização de conceitos ligados à emoção e à saúde mental e até slogans relacionados à palavra “cura” ajudaram a construir uma identidade eleitoral diferente.
Essa estratégia não significa necessariamente voto.
O Google Trends mede interesse de pesquisa, não intenção de voto.
Uma pessoa pode procurar “Augusto Cury é de esquerda ou direita” porque considera votar nele, porque discordou dele, porque ficou curiosa, porque viu um meme, porque não sabia que o escritor era candidato ou simplesmente porque quer entender sua posição política.
Essa distinção é fundamental.
O comportamento registrado no Google mostra que Augusto Cury conseguiu romper uma barreira de atenção. Antes, parte significativa do eleitorado sabia quem era o escritor, mas não necessariamente conhecia sua candidatura. Depois do debate, milhares de brasileiros começaram a pesquisar justamente sua identidade política.
O tipo de pergunta feita pelos usuários é revelador.
“Augusto Cury é de esquerda ou direita?” demonstra uma tentativa de encaixar o candidato dentro da divisão ideológica que organiza parte da política brasileira.
“Augusto Cury partido” mostra desconhecimento sobre sua filiação ao Avante.
“Augusto Cury pesquisa” indica que uma parcela do público que tomou conhecimento da candidatura passou imediatamente a querer saber se ele possui chances eleitorais.
Essas três buscas juntas contam uma pequena história.
Primeiro, o eleitor descobre que Cury é candidato.
Depois tenta entender onde ele está politicamente.
Em seguida procura saber se outras pessoas também pretendem votar nele.
É justamente esse caminho que transforma atenção digital em uma oportunidade para uma campanha.
O desafio começa depois.
Augusto Cury precisa converter curiosidade em conhecimento político, conhecimento em consideração de voto e, finalmente, consideração em intenção efetiva de voto.
Hoje existe uma distância enorme entre as buscas no Google e os aproximadamente 2% registrados nas pesquisas eleitorais.
Por isso, dizer que Augusto Cury já se tornou a terceira via seria antecipar uma conclusão que os números ainda não permitem.
O que pode ser afirmado é que ele conseguiu disputar o espaço da terceira via no campo da atenção pública.
Para entender esse processo, o Diário Tocantinense tomou como referência estudos desenvolvidos na Universidade Federal de Goiás sobre comunicação, comportamento eleitoral e os efeitos da mídia. O professor Pedro Santos Mundim, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, é pesquisador de comunicação e política, opinião pública, processo eleitoral e voto e integra pesquisas sobre comportamento político e polarização. A produção acadêmica do pesquisador mostra que a exposição produzida pela mídia é uma variável relevante para compreender disputas eleitorais e mudanças no ambiente de opinião pública.
Essa literatura ajuda a interpretar o caso de Augusto Cury: ganhar exposição não significa ganhar automaticamente votos, mas candidatos pouco conhecidos politicamente podem ser mais afetados por momentos de grande visibilidade justamente porque existe mais informação nova sendo apresentada ao eleitor.
O debate da Band funcionou como esse tipo de acontecimento.
Para Lula ou Flávio Bolsonaro, já amplamente conhecidos pelo eleitorado, alguns minutos adicionais de televisão dificilmente provocariam uma onda de perguntas básicas sobre quem são, qual partido representam ou onde estão ideologicamente.
No caso de Augusto Cury, aconteceu o contrário.
Milhões de brasileiros conheciam o nome, mas o conheciam associado a livros.
Quando o mesmo nome apareceu atrás de um púlpito de candidato à Presidência, surgiu uma enorme lacuna informacional.
O Google virou o lugar onde essa lacuna começou a ser preenchida. Outro elemento favorável foi o contraste comportamental.
Em uma noite de ataques políticos, Cury tentou trabalhar a imagem de pacificador. Em diferentes momentos, condenou a agressividade da polarização e tentou trazer para o debate conceitos próximos do universo que construiu como escritor.
Essa escolha teve riscos.
Para alguns espectadores, sua performance pode ter parecido pouco política ou excessivamente ligada à linguagem motivacional. Houve também críticas à maneira como apresentou algumas propostas e à utilização de referências de sua carreira literária.
Mas eleitoralmente a diferenciação produziu uma vantagem: fez com que ele não parecesse apenas mais um candidato no palco.
O candidato virou assunto. E nas eleições digitais, virar assunto é uma moeda política importante.
A própria tendência geral relacionada ao “debate Band” ultrapassou 200 mil pesquisas no Google e chegou a apresentar crescimento superior a 1.000%, com Augusto Cury aparecendo entre as principais consultas relacionadas ao evento.
Agora, a campanha enfrenta o teste mais difícil. O pico de interesse precisa sobreviver ao ciclo de notícias.
Google Trends costuma registrar movimentos rápidos. Um candidato pode explodir em buscas durante 24 ou 48 horas e desaparecer da agenda pública se não houver novos acontecimentos capazes de manter sua exposição.
Cury terá uma oportunidade importante já neste sábado, 29 de agosto, quando será entrevistado pela TV Globo na série de sabatinas com os presidenciáveis. Será a última entrevista da sequência promovida pela emissora.
O desempenho nessa entrevista poderá mostrar se o efeito Band foi apenas uma onda momentânea ou o início de um processo mais consistente de apresentação do candidato ao país. Também haverá pressão para que Cury responda às perguntas que o próprio Google revela.
É de esquerda ou de direita? Qual é exatamente o projeto político do Avante?
Como pretende governar? De onde virão os recursos para suas propostas?
Qual é sua posição sobre economia, segurança pública, Supremo Tribunal Federal, impostos, responsabilidade fiscal e política externa?
E, principalmente, por que um eleitor que rejeita Lula e Flávio Bolsonaro deveria escolher Augusto Cury em vez de Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema ou outro candidato que também tenta ocupar o espaço fora dos dois principais polos?
Essa é a verdadeira disputa pela terceira via.
Não basta dizer que é contra a polarização. É necessário convencer o eleitor de que existe um projeto viável entre os dois campos dominantes.
Por enquanto, Augusto Cury conseguiu algo anterior ao voto, mas indispensável para qualquer candidato que começa atrás: conseguiu ser procurado.
De escritor conhecido por milhões de leitores a uma das maiores curiosidades da eleição presidencial, Augusto Cury saiu do debate da Band com apenas cerca de 2% nas pesquisas, mas com uma presença digital muito maior do que possuía antes.
O Google mostra isso de maneira direta. Os brasileiros não estão apenas digitando “Augusto Cury”.
Estão perguntando quem ele é politicamente, de que lado está, qual é seu partido e quanto tem nas pesquisas. Isso ainda não faz dele uma terceira via eleitoral.
Mas mostra que, pelo menos durante alguns dias de agosto, Augusto Cury conseguiu abrir uma porta que candidatos com 1%, 2% ou 3% normalmente têm enorme dificuldade para encontrar: a porta da curiosidade nacional.
E em uma eleição ainda dominada pela polarização, essa curiosidade pode ser o primeiro ativo para quem pretende convencer o eleitor de que existe uma terceira escolha.