“Brain fog” na menopausa: por que mulheres esquecem palavras, perdem o foco e sentem a memória falhar?

“Brain fog” na menopausa: por que mulheres esquecem palavras, perdem o foco e sentem a memória falhar?
Imagem ilustrativa. A fotografia representa o impacto emocional vivido por mulheres após episódios de violência familiar e debates públicos que reforçam julgamentos e estigmas sociais.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 27 de agosto de 2026 7

Entrar em um cômodo e esquecer o que foi buscar, perder uma palavra no meio da conversa, precisar de alguns segundos a mais para lembrar um nome conhecido ou perceber que a concentração já não funciona como antes. Para muitas mulheres que atravessam o climatério e a menopausa, situações como essas começam a se repetir e podem provocar uma preocupação imediata: será que a memória está falhando de verdade?

O fenômeno é conhecido como “brain fog”, expressão em inglês que pode ser traduzida como névoa mental. Não se trata de uma doença ou de um diagnóstico médico isolado, mas de um conjunto de queixas cognitivas que pode envolver esquecimento, dificuldade para encontrar palavras, perda momentânea de concentração, distração, sensação de lentidão para pensar e maior esforço para realizar tarefas que antes pareciam automáticas.

Dados da The Menopause Society indicam que entre 40% e 60% das mulheres de meia-idade relatam algum tipo de sintoma cognitivo durante a transição para a menopausa. Entre as queixas mais comuns estão esquecer nomes, palavras e números, perder o fio de uma conversa, ter dificuldade para manter o foco e se distrair com maior facilidade.

A boa notícia é que, na maioria das mulheres, essas alterações são leves e não significam que uma demência esteja começando. A própria The Menopause Society destaca que mudanças cognitivas típicas da perimenopausa costumam permanecer dentro dos limites considerados normais e que demências em mulheres de meia-idade são raras.

Um estudo publicado em 2026 envolvendo mais de 14 mil mulheres entre 45 e 55 anos reforçou essa diferença. As participantes na perimenopausa relatavam mais “brain fog” e problemas de memória do que as mulheres na pré-menopausa, mas as diferenças objetivas encontradas nos testes cognitivos foram pequenas. Ou seja: a sensação experimentada pelas mulheres é real, embora não corresponda, na maioria dos casos, a uma perda global importante da capacidade intelectual.

A explicação passa, em parte, pelos hormônios.

Durante a perimenopausa, os níveis de estrogênio deixam de seguir o padrão hormonal observado durante a fase reprodutiva. Em vez de simplesmente cair de maneira linear, podem sofrer oscilações importantes antes de se estabilizarem em níveis mais baixos depois da menopausa.

O cérebro possui receptores de estrogênio em regiões relacionadas à memória, atenção e processamento das informações. Por isso, as mudanças hormonais podem interferir temporariamente no funcionamento dessas áreas.

A professora Pauline Maki, pesquisadora da Universidade de Illinois em Chicago e uma das principais especialistas internacionais no estudo da menopausa e do cérebro, explica que as áreas cerebrais envolvidas na maneira como lembramos, pensamos e nos concentramos possuem receptores para estrogênio. Durante a perimenopausa, o cérebro precisa se adaptar às grandes variações desse hormônio, processo que pode ajudar a explicar dificuldades para recuperar palavras, lembrar nomes e manter a concentração.

Segundo Maki, pesquisas longitudinais já identificaram pequenas, mas mensuráveis, reduções principalmente na memória verbal durante a passagem da pré-menopausa para a perimenopausa. Isso pode aparecer na vida cotidiana justamente naquele momento em que a palavra parece estar “na ponta da língua”, mas demora a surgir.

A especialista também defende que uma das primeiras medidas é reconhecer essas experiências como parte possível da transição menopáusica, em vez de tratar automaticamente todo esquecimento como sinal de uma doença neurológica. Em sua avaliação, o cérebro feminino é sensível às oscilações do estrogênio tanto na cognição quanto no humor.

No Brasil, informações revisadas pelo neurologista Ivan Hideyo Okamoto, do Einstein Hospital Israelita, também apontam que os hormônios femininos, especialmente o estrogênio, participam da comunicação entre neurônios, da aprendizagem e da consolidação das memórias. Com a mudança hormonal, algumas funções podem ser temporariamente afetadas, principalmente aquelas relacionadas à atenção.

E atenção e memória estão diretamente relacionadas.

Para lembrar alguma coisa depois, o cérebro precisa primeiro registrar aquela informação. Se uma mulher está dormindo mal, trabalhando sob pressão, preocupada, ansiosa ou tentando realizar várias tarefas simultaneamente, pode não prestar atenção suficiente no momento em que determinada informação aparece.

Mais tarde, a sensação será de esquecimento.

Na prática, porém, aquela informação pode nem ter sido adequadamente registrada.

É por isso que especialistas alertam que colocar toda a culpa no estrogênio é uma simplificação.

O “brain fog” da menopausa é considerado multifatorial. Mudanças hormonais podem participar do processo, mas qualidade do sono, ondas de calor, suores noturnos, ansiedade, alterações do humor, estresse, sobrecarga profissional, responsabilidades familiares e o próprio envelhecimento também podem influenciar atenção e memória.

A British Menopause Society reforçou esse cuidado em uma nova orientação clínica publicada em junho de 2026. A entidade destaca que névoa mental não deve ser automaticamente atribuída à menopausa, porque distúrbios do sono, estresse, fatores nutricionais e outras condições de saúde também podem produzir sintomas semelhantes.

A especialista em menopausa Stephanie Faubion também chama atenção para essa combinação. Segundo ela, mulheres que chegam ao consultório descrevem sensação de estar “nebulosas”, com dificuldade de concentração e percepção de que a memória piorou. Pesquisas mostram alterações principalmente em memória verbal em parte dessas mulheres, mas sono ruim, ansiedade, depressão e sintomas vasomotores podem intensificar o problema.

Isso ajuda a entender por que uma mulher que acorda várias vezes durante a madrugada por causa de ondas de calor pode perceber pior desempenho no trabalho no dia seguinte.

O problema não necessariamente veio apenas da queda hormonal. A interrupção repetida do sono também prejudica atenção, velocidade de raciocínio, memória e disposição.

O chamado “brain fog” pode aparecer ainda antes da menopausa propriamente dita.

Menopausa é o nome dado ao marco correspondente à última menstruação, reconhecido retrospectivamente depois de 12 meses consecutivos sem menstruar. Já a perimenopausa é a fase de transição que pode começar anos antes, quando surgem alterações no ciclo menstrual e sintomas hormonais.

É justamente durante essa transição que muitas queixas cognitivas começam.

Por isso, uma mulher de 43, 45 ou 47 anos ainda menstruando pode apresentar sintomas relacionados ao climatério e não perceber inicialmente a ligação entre as mudanças.

Além dos esquecimentos, podem aparecer ondas de calor, alterações no sono, irritabilidade, ansiedade, mudanças de humor, redução da libido, alterações menstruais e cansaço.

A ginecologista Helena Hachul de Campos, professora da área de Saúde da Mulher da Faculdade de Medicina do Einstein, está entre os especialistas brasileiros que apontam déficit de atenção e memória como sintomas que podem acompanhar a transição menopáusica, ao lado das alterações emocionais provocadas pelas oscilações hormonais.

Outro medo comum é o Alzheimer.

Para uma mulher que sempre teve excelente memória, perceber que começa a esquecer compromissos ou nomes pode ser assustador.

Mas existe uma diferença fundamental entre os lapsos frequentemente associados à menopausa e um quadro de deterioração cognitiva progressiva.

No “brain fog”, a mulher pode esquecer onde deixou a chave e depois encontrá-la. Pode não lembrar imediatamente o nome de uma pessoa e recuperá-lo minutos mais tarde. Pode perder o foco durante uma reunião, especialmente após uma noite ruim de sono.

Em condições neurodegenerativas, a alteração tende a ser progressiva e pode começar a comprometer autonomia, organização e realização de atividades rotineiras.

Especialistas do Einstein recomendam procurar avaliação quando os episódios deixam de ser ocasionais e passam a interferir de maneira concreta na independência. Dificuldades para administrar contas, preparar refeições conhecidas, cumprir compromissos, manter a organização da rotina ou realizar atividades anteriormente dominadas merecem investigação médica.

A mudança também merece atenção quando piora progressivamente, é percebida claramente por familiares ou colegas ou aparece acompanhada de alterações importantes de linguagem, comportamento, orientação ou capacidade de executar tarefas.

Nessas situaçõesções, não se deve simplesmente concluir que “é menopausa”.

Condições como alterações da tireoide, deficiência de vitamina B12, anemia, transtornos do sono, depressão, ansiedade, efeitos de medicamentos e outras doenças podem produzir queixas cognitivas e precisam ser consideradas individualmente pelo profissional de saúde.

A avaliação poderá envolver ginecologista, clínico, neurologista, psiquiatra ou outros especialistas dependendo das características apresentadas pela paciente.

Outro ponto que gera dúvidas é a terapia hormonal.

Ela possui indicações reconhecidas para determinados sintomas da menopausa e pode melhorar indiretamente a sensação de névoa mental em algumas mulheres quando consegue controlar, por exemplo, ondas de calor e distúrbios de sono relacionados à menopausa.

Isso não significa, entretanto, que hormônio deva ser prescrito simplesmente como um medicamento para “aumentar a memória”.

A The Menopause Society afirma que, na menopausa natural, a terapia hormonal não é recomendada especificamente com a finalidade de melhorar a cognição ou prevenir demência. Estudos randomizados também não demonstraram melhora consistente da memória simplesmente pelo uso de terapia hormonal em mulheres naturalmente pós-menopáusicas.

A decisão sobre utilizar hormônios deve ser individualizada, considerando idade, tempo desde a menopausa, sintomas, histórico clínico e possíveis benefícios e riscos.

Não existe, portanto, uma receita única para tratar o “brain fog”.

Em muitas situações, cuidar dos fatores que estão piorando a concentração pode produzir uma diferença importante.

Sono adequado está entre as prioridades.

Atividade física regular também possui papel importante para a saúde cerebral, cardiovascular e metabólica. Controle da pressão arterial, diabetes e colesterol, abandono do cigarro, alimentação equilibrada, manutenção das relações sociais e atividades que desafiam o cérebro são estratégias associadas à preservação da saúde cognitiva.

Isso não significa que uma mulher precise começar a fazer exercícios complexos de memória todos os dias.

Aprender algo novo, ler, estudar, tocar um instrumento, fazer cursos, jogar, conversar, manter uma vida social ativa e evitar o isolamento são formas de continuar estimulando diferentes circuitos cerebrais.

O cérebro não perde sua capacidade de aprender simplesmente porque a mulher entrou na menopausa.

O neurologista Ivan Hideyo Okamoto destaca que, com o envelhecimento, pode existir uma redução na velocidade de processamento das informações, mas isso não significa perda da capacidade de armazenar novos conhecimentos. O cérebro continua aprendendo; em determinadas situações, apenas precisa de um pouco mais de tempo para registrar ou recuperar uma informação.

Essa diferença é essencial para reduzir um medo que acompanha muitas mulheres.

Esquecer uma palavra ocasionalmente não significa estar perdendo a capacidade intelectual.

Precisar anotar mais compromissos também não representa necessariamente doença.

E sentir-se menos concentrada durante o climatério não significa que a mulher se tornará incapaz de exercer suas atividades profissionais.

As queixas são reais e podem ser incômodas, inclusive no ambiente de trabalho, mas as evidências disponíveis indicam que, para a maioria das mulheres, as alterações cognitivas da transição menopáusica são sutis e tendem a estabilizar ou melhorar depois dessa fase.

É justamente por isso que o assunto vem ganhando espaço na medicina.

Durante décadas, a menopausa foi lembrada quase exclusivamente pelas ondas de calor, alterações menstruais e sintomas geniturinários.

Hoje, pesquisas internacionais colocam cérebro, sono, humor, memória e saúde mental dentro da mesma discussão.

Em julho deste ano, a Organização Mundial da Saúde promoveu um encontro específico sobre menopausa, cérebro, saúde mental e cognição, com participação de especialistas internacionais, demonstrando como o tema ganhou relevância na agenda de saúde feminina.

Para as mulheres que convivem diariamente com o “brain fog”, a principal mensagem dos especialistas é de equilíbrio. A névoa mental existe.

Os sintomas não devem ser ignorados. Mas também não devem produzir automaticamente o medo de demência.

Perceber mudanças no próprio corpo, conversar sobre elas durante a consulta, cuidar do sono, da atividade física, da saúde cardiovascular e emocional e investigar qualquer alteração progressiva continuam sendo as melhores formas de atravessar essa fase com mais segurança.

Às vezes, aquela palavra que desaparece no meio da frase, o compromisso que precisou ser anotado ou o motivo esquecido ao entrar em um cômodo fazem parte de um cérebro tentando se adaptar a uma grande transição hormonal.

Quando esses episódios são leves e passageiros, podem fazer parte do climatério. Quando começam a avançar, interferir na autonomia ou modificar a rotina de forma importante, deixam de ser apenas “brain fog” até que uma avaliação médica demonstre o contrário.

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