Análise DT | Campanha pelo Governo segue concentrada em Palmas enquanto interior ainda demonstra pouco envolvimento eleitoral
A eleição para o Governo do Tocantins já começou oficialmente, os principais candidatos estão nas ruas, as pesquisas começaram a ganhar espaço no debate público e as estruturas partidárias estão funcionando. Mesmo assim, a menos de dois meses da votação, a percepção do Diário Tocantinense é de que a campanha ainda não tomou conta do interior do Estado na mesma intensidade que movimenta Palmas e os principais grupos políticos.
O DT acompanha desde a pré-campanha as movimentações de Professora Dorinha, Vicentinho Júnior, Laurez Moreira e dos demais candidatos ao Palácio Araguaia. Até agora, Palmas continua concentrando boa parte dos acontecimentos políticos de maior repercussão, como adesivaços, reuniões, entrevistas, debates, encontros com segmentos organizados, lançamento de estratégias e movimentação das equipes de comunicação. Isso não significa que os candidatos estejam deixando o interior de lado. Todos já percorrem municípios e participam de agendas regionais, mas ainda existe uma diferença clara entre presença de candidato e envolvimento popular.
Professora Dorinha possui uma estrutura política ampla, formada por prefeitos, vereadores, deputados e candidatos proporcionais em diferentes regiões. A senadora também vem utilizando sua trajetória parlamentar para mostrar recursos destinados aos municípios e aproximar esse trabalho do eleitor. Vicentinho Júnior, por outro lado, busca apresentar uma candidatura com discurso de mudança e tem conseguido reunir lideranças municipais importantes, além de ampliar o palanque com nomes que estão entrando diretamente na campanha. Laurez Moreira tenta transformar a experiência acumulada como ex-prefeito de Gurupi e sua aproximação com o presidente Lula em força eleitoral para diminuir a distância em relação aos dois primeiros colocados.
O problema é que existe muito movimento de liderança e ainda pouco movimento espontâneo do eleitor. Prefeitos estão declarando apoio, vereadores escolhem seus candidatos, ex-prefeitos participam de reuniões, deputados percorrem municípios, coordenadores formam equipes e os primeiros adesivos começam a aparecer com mais frequência. Mas tudo isso ainda não significa que a população tenha mergulhado definitivamente na eleição.
Em muitas cidades do interior, a campanha continua sendo discutida com mais intensidade por quem participa diretamente da política do que pelo cidadão que está fora dela. O comerciante, trabalhador, produtor rural, servidor público, jovem e eleitor que não participa de grupo político ainda está muito mais preocupado com emprego, saúde, preço dos alimentos, combustível, segurança, escola dos filhos e problemas do próprio município.
Esse comportamento também pode ser explicado pela mudança na maneira de fazer campanha. As redes sociais permitem que um candidato chegue a praticamente qualquer cidade sem precisar estar fisicamente nela. Instagram, Facebook, TikTok e principalmente WhatsApp distribuem discursos, vídeos, ataques, propostas e pesquisas em poucos minutos. Mas visualização não significa voto. Um eleitor pode assistir a dez vídeos políticos durante o dia e continuar sem saber em quem votará em outubro.
As pesquisas divulgadas nas últimas semanas mostram que Professora Dorinha e Vicentinho Júnior começam a concentrar a disputa pelo Governo. Alguns levantamentos apontam vantagem de Dorinha, enquanto outros mostram diferença menor e até situações de empate técnico. Laurez aparece em uma faixa inferior e tenta crescer durante a campanha. As pesquisas possuem metodologias, períodos de coleta e amostras diferentes e precisam ser analisadas individualmente, mas todas ajudam a mostrar que existe uma disputa mais consolidada entre dois nomes neste momento.
Nas ruas do interior, entretanto, essa polarização ainda não aparece com a mesma força. O Tocantins político está aquecido, mas o Tocantins eleitoral ainda está esquentando. Quem acompanha política diariamente recebe pesquisas, vídeos, agendas, manifestações de apoio e informações a todo momento e pode ter a impressão de que todo o Estado já está envolvido na eleição. Fora dessa bolha, a realidade é diferente.
Dorinha possui uma vantagem importante na quantidade de lideranças que reúne, mas precisará transformar apoio institucional em voto. Prefeito declarar apoio não significa que todos os seus eleitores seguirão automaticamente aquele candidato. O mesmo vale para vereadores, deputados, secretários e ex-prefeitos. A eleição é secreta e somente na urna será possível saber qual é a verdadeira capacidade de transferência de votos dessas lideranças.
Vicentinho enfrenta desafio semelhante. A candidatura utiliza fortemente o discurso de renovação e tenta se apresentar como alternativa ao grupo atualmente ligado ao Governo. Possui prefeitos, vereadores e lideranças importantes ao seu lado, mas também precisará demonstrar que essa movimentação ultrapassa os grupos políticos e alcança quem não possui cargo, não frequenta comitê e não participa das reuniões eleitorais.
Laurez Moreira enfrenta uma dificuldade ainda maior porque precisa ampliar seu próprio conhecimento eleitoral e transformar a proximidade com Lula em votos no Tocantins. O desempenho nacional do presidente não é automaticamente transferido para um candidato estadual, e a campanha precisará apresentar Laurez ao eleitor pelo que ele representa e propõe para o Estado.
Outro fator importante é o tamanho territorial da disputa. O Tocantins possui 139 municípios e uma eleição estadual não é vencida apenas em Palmas. Araguaína, Gurupi, Porto Nacional, Paraíso, Colinas, Guaraí, Araguatins, Tocantinópolis, Augustinópolis, Dianópolis, Miracema e dezenas de municípios menores podem produzir diferenças importantes numa disputa apertada.
Colinas do Tocantins é um bom exemplo do momento atual. Existem lideranças se movimentando, candidatos proporcionais estruturando suas bases, adesivaços sendo preparados e diferentes grupos buscando apoio. Apesar disso, ainda não existe aquela sensação de uma cidade completamente tomada pela campanha para governador. O eleitor conhece os principais candidatos, acompanha alguma movimentação, mas boa parte ainda não demonstra envolvimento intenso.
A fragmentação das alianças também ajuda a explicar essa temperatura mais baixa. Um prefeito pode apoiar um candidato ao Governo, votar em outro grupo para o Senado e trabalhar com deputados estaduais e federais pertencentes a campos diferentes. Um vereador pode estar com Dorinha e apoiar um proporcional que possui relação com outra composição. Outro pode defender Vicentinho para governador e caminhar com um candidato ao Senado ligado a outro grupo. Isso torna a eleição mais difícil de compreender para quem não acompanha diariamente os bastidores.
Nas próximas semanas, os candidatos proporcionais devem exercer papel decisivo para aumentar a temperatura da campanha. Deputados estaduais e federais possuem equipes espalhadas pelos municípios, lideranças comunitárias, mobilizadores e bases eleitorais próprias. Quando essas estruturas entrarem com mais força nas ruas, os candidatos ao Governo também ganharão presença nos bairros, assentamentos, distritos e comunidades rurais.
É justamente aí que a campanha pode mudar de fase. Palmas continuará sendo o centro político e midiático da eleição porque concentra as maiores estruturas partidárias, debates, veículos de comunicação, reuniões e principais coordenações. Mas a vitória será construída na soma dos votos dos 139 municípios.
Os debates também começam a fornecer material para essa interiorização. As falas dos candidatos rapidamente são transformadas em pequenos vídeos, compartilhadas nos grupos de WhatsApp e utilizadas pelas equipes locais. Dorinha tenta sustentar uma imagem de experiência e capacidade técnica, Vicentinho trabalha um discurso mais direto de mudança e enfrentamento, enquanto Laurez aposta na experiência administrativa e na ligação com o campo nacional.
O grande erro de qualquer candidatura neste momento seria confundir quantidade de lideranças com mobilização popular. Prefeitos, vereadores, deputados e ex-prefeitos possuem importância eleitoral, mas nenhum deles entra na cabine de votação ao lado do cidadão. Uma fotografia cheia de políticos pode demonstrar força de grupo, mas não necessariamente revela o sentimento das ruas.
A verdadeira temperatura da eleição será percebida quando a discussão ultrapassar os gabinetes, comitês e grupos políticos. Quando o comerciante começar a discutir quem tem a melhor proposta para o Estado, quando o trabalhador formar opinião sobre os candidatos, quando o produtor rural começar a comparar projetos, quando os jovens entrarem no debate e quando o eleitor passar a cobrar diretamente compromissos para sua cidade.
É esse movimento que ainda aparece de forma desigual pelo interior. A campanha existe, possui estrutura, recursos, candidatos competitivos, pesquisas e muitas lideranças, mas ainda falta envolver uma parcela maior da população.
Nos próximos dias, o cenário pode mudar rapidamente. A chegada de mais material às ruas, o aumento das visitas dos candidatos, a atuação dos proporcionais e a aproximação da votação tendem a fazer a eleição entrar definitivamente nas conversas do cotidiano.
Por enquanto, Palmas permanece como o principal epicentro político da campanha. O interior começa a sentir a movimentação, mas ainda não vive a eleição com a mesma intensidade.
E pode estar justamente aí um dos principais fatores desta disputa: o eleitor que hoje permanece silencioso, não coloca adesivo no carro, não aparece em reuniões e não publica candidato nas redes sociais pode ser exatamente aquele que decidirá quem comandará o Tocantins nos próximos quatro anos.