Segundo turno começa com vantagem de Flávio, mas 9,3 milhões de votos e a abstenção deixam a eleição aberta

Segundo turno começa com vantagem de Flávio, mas 9,3 milhões de votos e a abstenção deixam a eleição aberta
ilho de ex-presidente elogia novo projeto do governo Lula — Foto: Cristiano Mariz
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 5 de outubro de 2026 7

Resultado do primeiro turno altera o ponto de partida da disputa presidencial: Flávio Bolsonaro chega com 2,2 milhões de votos de vantagem, enquanto Lula precisa recuperar terreno em Minas Gerais, São Paulo, entre homens e jovens e disputar um eleitorado que não pertence organicamente aos dois campos

O segundo turno da eleição presidencial de 2026 começa em situação diferente daquela observada quatro anos atrás. Flávio Bolsonaro (PL) termina o primeiro turno em primeiro lugar, com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) soma 53.876.617 votos, ou 45,16%. A distância é de 2.227.651 votos e 1,87 ponto percentual, a menor entre primeiro e segundo colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.

O dado coloca Flávio em vantagem, mas não permite tratar a eleição de 25 de outubro como definida. Pela primeira vez nesta campanha, o problema de Lula deixa de ser apenas preservar sua base e passa a ser recuperar votos. Flávio, por sua vez, precisa fazer algo eleitoralmente menos complexo: conservar a coalizão que construiu no primeiro turno e incorporar uma parcela dos eleitores das candidaturas eliminadas.

A matemática é melhor para Flávio

Os candidatos que ficaram fora do segundo turno concentram aproximadamente 9,3 milhões de votos, ou 7,81% dos válidos. Augusto Cury termina com 3.448.551 votos (2,89%), Renan Santos com 2.675.878 (2,24%) e Ronaldo Caiado com 2.605.128 (2,18%). Juntos, os três concentram quase toda a votação disponível fora de Lula e Flávio.

Existe uma maneira simples de entender a vantagem inicial do candidato do PL. Se Lula e Flávio conservassem absolutamente todos os votos do primeiro turno, se o comparecimento permanecesse igual e se os 9,3 milhões de votos das demais candidaturas fossem divididos somente entre eles, Lula precisaria ficar com aproximadamente 62% desses votos, contra cerca de 38% para Flávio, para eliminar a diferença existente.

Isso não é uma projeção eleitoral, porque o segundo turno muda a participação, há migração entre os próprios finalistas e parte dos eleitores pode votar branco, nulo ou não comparecer. Mas a conta mostra por que Flávio inicia a nova etapa com uma vantagem matemática.

O problema maior de Lula não está nos 9 milhões. Está nos votos que perdeu

A comparação com 2022 revela uma mudança mais profunda. Lula recebeu 57,26 milhões de votos no primeiro turno de 2022. Agora, soma 53,88 milhões — cerca de 3,4 milhões a menos. Flávio, ao contrário, recebeu aproximadamente 5 milhões de votos a mais do que Jair Bolsonaro havia recebido na primeira rodada de 2022.

O movimento também aparece territorialmente. Lula reduz seu percentual em 25 das 27 unidades da Federação na comparação com 2022. As exceções são Distrito Federal e Amapá. Minas Gerais e Tocantins, que haviam colocado Lula na frente quatro anos antes, passam para o campo de Flávio.

Isso muda a natureza da campanha petista. Não basta procurar Cury, Caiado ou Renan. Lula precisa entender por que parte de seu próprio eleitorado de 2022 deixa de votar nele, migra para Flávio, escolhe outro candidato ou não comparece.

Minas Gerais passa a ser o centro do mapa

Nenhum estado explica sozinho uma eleição nacional, mas Minas Gerais passa a ter peso especial. Flávio recebe 5,77 milhões de votos, contra 5,18 milhões de Lula, diferença próxima de 590 mil votos. O candidato do PT vence em mais municípios — 452 contra 401 —, mas Flávio se sai melhor nos grandes centros urbanos mineiros.

Há ainda um dado histórico: desde a redemocratização, o candidato vencedor da eleição presidencial também vence em Minas Gerais. Isso não significa que o estado “prevê” o resultado, mas mostra como a composição social e regional mineira costuma se aproximar do equilíbrio nacional.

Para Lula, portanto, não é indispensável vencer Minas, mas é necessário diminuir a diferença. Para Flávio, conservar a vantagem mineira reduz significativamente o espaço disponível para uma virada petista em outras regiões.

São Paulo apresenta dois Brasis

São Paulo oferece outro sinal importante. No estado, Flávio registra 51,93%, contra 38,20% de Lula. Na capital, porém, Lula vence: 46,58% a 42,13%.

O problema de Lula está no tamanho do interior paulista e na diferença acumulada fora da capital. A campanha petista não precisa transformar São Paulo em um estado lulista para virar a eleição nacional; precisa diminuir a vantagem de Flávio.

Do outro lado, a reeleição de Tarcísio de Freitas no primeiro turno, com 62,65%, entrega ao candidato do PL uma estrutura política estadual capaz de atuar na mobilização do eleitorado durante as próximas três semanas. Minas também elege Cleitinho no primeiro turno, enquanto Paraná escolhe Sergio Moro e Rio Grande do Sul elege Luciano Zucco.

É uma diferença relevante em relação a 2022: Flávio não chega ao segundo turno apenas com votos. Chega acompanhado por governadores recém-eleitos e por uma direita que também cresce nas eleições legislativas.

O Congresso produz um ambiente político favorável à direita

O PL sai do primeiro turno com 28 senadores, a maior bancada da Casa, enquanto o PT fica com nove. A eleição também fortalece partidos de direita e centro-direita nos governos estaduais.

Isso não transfere automaticamente votos para Flávio. Eleitor não obedece necessariamente ao governador, senador ou prefeito. Mas produz três recursos importantes: estrutura municipal, capacidade de mobilização e percepção de tendência.

A federação União Brasil-PP já sinaliza aproximação com Flávio, enquanto o PSD, partido de Ronaldo Caiado, anuncia neutralidade e libera seus diretórios.

No segundo turno, apoio partidário não aumenta o tempo de televisão, porque os dois candidatos dividem igualmente a propaganda eleitoral. O valor dessas alianças está nas redes locais: prefeitos, vereadores, deputados, governadores, militância e capacidade de colocar a campanha na rua.

Os votos de Cury, Renan e Caiado não são um único bloco

É um erro somar os 9,3 milhões de votos das candidaturas eliminadas e tratá-los como se fossem ideologicamente iguais.

Cury, terceiro colocado, afirma que não apoia nenhum dos dois finalistas. Renan Santos também descarta participação nas campanhas e faz críticas diretas a Flávio. O PSD de Caiado adota neutralidade. Romeu Zema, embora não anuncie formalmente apoio a Flávio no primeiro momento, declara que estará “contra o PT”.

A tendência ideológica de parte desse eleitorado favorece Flávio, principalmente entre eleitores de Zema e setores de Caiado. Mas a transferência não pode ser considerada automática. O eleitor de Renan, por exemplo, ouviu durante a campanha críticas tanto ao PT quanto ao bolsonarismo. O eleitor de Cury apresenta uma identidade política menos partidária.

Por isso, o segundo turno provavelmente será decidido mais pela transferência individual do voto do que pelos anúncios formais de apoio.

Há 33 milhões de eleitores fora da equação

O maior reservatório eleitoral nem sequer votou em um dos candidatos.

A abstenção chega a aproximadamente 33,4 milhões de pessoas, ou 21,08% do eleitorado, maior percentual registrado no primeiro turno desde 1998. Há ainda 2,3 milhões de votos brancos e 3,67 milhões de nulos.

Isso significa que o número de ausentes corresponde a cerca de 15 vezes a diferença entre Flávio e Lula.

Não significa, contudo, que existam 33 milhões de votos facilmente disponíveis. Uma parcela desse eleitorado não comparece por razões estruturais, como distância, idade, problemas cadastrais ou desinteresse permanente.

Mas uma diferença de 2,2 milhões torna pequenas alterações no comparecimento relevantes. Em 2022, por exemplo, a abstenção caiu no segundo turno diante do aumento da polarização.

Por isso, a eleição de 2026 também será uma disputa de mobilização: quem conseguir fazer seu eleitor comparecer pode ganhar tanto quanto quem convencer um adversário a mudar de lado.

Onde Lula perdeu eleitoralmente

Uma das informações mais importantes para compreender o resultado aparece nos estudos sobre perfil do eleitorado.

Segundo análise do cientista político Antonio Lavareda, Lula perde terreno principalmente entre homens, jovens de 16 a 24 anos e segmentos de menor renda e escolaridade. Parte desses votos migra para Flávio.

Esse dado merece atenção porque atinge grupos que historicamente já fizeram parte da base eleitoral petista. A dificuldade de Lula não está apenas entre o empresariado ou nas classes de renda mais alta.

Há também uma questão econômica. Apesar de avanços em indicadores de emprego e renda, pesquisas registram dificuldade de parte do eleitorado em perceber melhora concreta no orçamento doméstico. Endividamento, alimentação e custo de vida permanecem entre os pontos capazes de produzir desgaste no governo.

O segundo turno, portanto, impõe a Lula uma escolha estratégica: se a campanha ficar restrita à defesa dos resultados do governo, ela corre o risco de falar sobre indicadores enquanto uma parcela do eleitorado responde a partir da experiência do supermercado, das dívidas e da renda disponível.

Mulheres, católicos e Nordeste formam o caminho de Lula

As últimas pesquisas anteriores ao primeiro turno mostram onde Lula ainda dispõe de vantagem. O Datafolha registrava liderança entre mulheres, eleitores de renda mais baixa, católicos e nordestinos. Flávio aparecia à frente entre evangélicos, rendas mais altas e no Sul.

Nas urnas, o mapa mantém parte dessa divisão. Lula vence todos os estados do Nordeste e ainda Pará, Amazonas e Amapá. Flávio predomina no Sul, Centro-Oeste e Sudeste, além de Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins.

O desafio de Lula não é simplesmente “ganhar mais no Nordeste”. É aumentar sua margem na região ao mesmo tempo em que reduz o prejuízo em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Sul.

Flávio enfrenta o problema inverso: precisa evitar que Lula transforme o Nordeste em uma diferença nacional suficientemente grande para anular suas margens no Centro-Sul.

Flávio precisa mudar menos a campanha

O resultado do primeiro turno indica que a estratégia de Flávio funciona melhor do que as pesquisas sugeriam.

A campanha pode manter o segundo turno como um plebiscito sobre o governo Lula: custo de vida, desgaste do PT, segurança pública, relação com o STF e desejo de mudança. A própria equipe de Flávio sinaliza que o antipetismo continuará como eixo da nova etapa.

Lula precisa fazer um movimento mais complexo. Como presidente, ele carrega a avaliação de quatro anos de governo. Para virar a eleição, precisa simultaneamente defender seu mandato, apresentar uma justificativa para mais quatro anos e aumentar a rejeição ao adversário.

Esse é o ponto em que debates podem ter peso maior do que no primeiro turno. Com apenas dois candidatos, o eleitor passa a comparar diretamente governo, personalidade, propostas, capacidade administrativa e risco político.

As pesquisas ainda não autorizam declarar vencedor

As simulações feitas antes da votação mostram um cenário muito mais equilibrado do que uma leitura isolada do resultado de domingo poderia sugerir.

A última AtlasIntel/Bloomberg, realizada entre 27 de setembro e 2 de outubro, apontava 50,1% dos votos válidos para Lula e 49,9% para Flávio, empate dentro da margem de erro de um ponto percentual. O Datafolha também apresentava empate técnico, com 48% para Lula e 45% para Flávio em votos totais.

Há, porém, uma ressalva: as mesmas pesquisas subestimaram o desempenho de Flávio no primeiro turno. Portanto, as simulações anteriores a domingo não devem ser tratadas como fotografia atual da disputa. O primeiro conjunto de pesquisas realizado integralmente após o resultado terá mais valor para medir a transferência dos votos.

Quem começa favorito?

A fotografia desta segunda-feira indica vantagem inicial de Flávio Bolsonaro, mas não uma eleição resolvida.

Ele reúne quatro vantagens objetivas: começa 2,2 milhões de votos à frente, precisa proporcionalmente de uma parcela menor dos votos das candidaturas eliminadas, dispõe de uma rede de governadores e parlamentares fortalecida pelas urnas e avança em territórios que Lula venceu em 2022.

Lula, entretanto, começa com 53,9 milhões de votos, domina eleitoralmente o Nordeste, mantém vantagem em segmentos demográficos numerosos e enfrenta uma diferença nacional de apenas 1,87 ponto. Uma oscilação relativamente pequena em Minas Gerais, São Paulo e na participação eleitoral pode alterar o resultado.

Há ainda um dado histórico favorável a Flávio, mas que deve ser interpretado com cuidado: desde 1989, nenhum candidato que terminou o primeiro turno presidencial em segundo lugar conseguiu virar a eleição no segundo. Ao mesmo tempo, nunca essa diferença inicial foi tão pequena quanto agora.

Por isso, a melhor definição para o começo do segundo turno é: Flávio entra na frente; Lula entra obrigado a virar votos. A vantagem existe, mas 25 de outubro ainda não está decidido.

O segundo turno tende a ser definido por cinco movimentos: a transferência dos 9,3 milhões de votos das candidaturas derrotadas; a capacidade de Lula de recuperar parte do eleitorado perdido desde 2022; o comportamento de Minas Gerais e São Paulo; o tamanho da vantagem petista no Nordeste; e, sobretudo, quem consegue reduzir a abstenção entre seus próprios eleitores.

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