Conflitos geopolíticos, avanço das commodities e cenário político interno influenciam projeções para 2025, apontam economistas
O mercado financeiro elevou novamente a projeção para o dólar ao final de 2025, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (08/04) pelo Banco Central. A nova estimativa aponta a moeda norte-americana cotada a R$ 5,29 no fechamento do ano, um aumento em relação à previsão da semana passada, que era de R$ 5,19. A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi mantida em 3,80%, enquanto a expectativa para o Produto Interno Bruto (PIB) segue estável, com alta de 1,95%. A taxa básica de juros (Selic) também permanece projetada em 9,00% ao final do período.
📊 Panorama dos principais indicadores – Boletim Focus (08/04)
Indicador | Projeção anterior | Projeção atual |
---|---|---|
Dólar (fim de 2025) | R$ 5,19 | R$ 5,29 |
IPCA (2025) | 3,80% | 3,80% |
PIB (2025) | 1,95% | 1,95% |
Selic (2025) | 9,00% | 9,00% |
💬 Pressão cambial: o que está por trás da alta do dólar?
A elevação na projeção para o dólar reflete, segundo analistas, um ambiente de incerteza global somado à instabilidade doméstica. O cenário internacional permanece marcado pelos conflitos no Oriente Médio e pelo aumento nos preços de commodities como petróleo, minério de ferro e alimentos, o que pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.
Para o economista Lucas Botelho, da Trígono Capital, o momento exige cautela:
“O cenário ainda é de cautela. O aumento nas commodities, os conflitos globais e a instabilidade política interna puxam o câmbio para cima. O mercado avalia com preocupação a condução das contas públicas e as tensões entre o Executivo e o Congresso.”
Além disso, o impasse fiscal em torno da meta de déficit zero para 2025, mantida pelo governo federal, acendeu alertas sobre a possibilidade de revisão do arcabouço fiscal ainda no primeiro semestre. A percepção de risco fiscal contribui para a valorização do dólar frente ao real.
📌 Inflação sob controle, mas com viés de alta
A projeção de 3,80% para o IPCA em 2025 permanece dentro da meta central definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. No entanto, analistas alertam que a inflação pode sofrer pressões adicionais nos próximos meses.
Segundo a economista Renata Leal, da XP Investimentos:
“Embora a projeção esteja ancorada, temos vetores que preocupam, como o aumento nos preços de alimentos e combustíveis. Se o dólar continuar subindo e os choques climáticos se intensificarem, o IPCA pode voltar a subir no segundo semestre.”
A pressão sobre os alimentos foi reforçada recentemente pelo aumento no preço do cacau e da batata-doce em centrais de abastecimento, além de eventos climáticos adversos registrados no Sul do país, afetando a oferta agrícola.
💡 PIB estável e juros sob observação
A projeção para o crescimento do PIB brasileiro em 2025 continua em 1,95%, refletindo uma expectativa moderada de retomada econômica. O número demonstra que, apesar da inflação sob controle, ainda há desconfiança sobre a capacidade de crescimento robusto, sobretudo diante da necessidade de equilíbrio fiscal e de estímulos produtivos.
A Selic, principal instrumento de política monetária do país, permanece estimada em 9,00% ao fim de 2025. O Banco Central mantém o ritmo de cortes graduais, considerando os riscos inflacionários e a trajetória das expectativas de médio prazo.
Para o analista financeiro Daniel Monteiro, do Banco Daycoval:
“O mercado mantém a Selic em 9% diante de um contexto onde há pouco espaço para cortes agressivos. O Banco Central está atuando com prudência, o que é positivo, mas a falta de clareza sobre o ajuste fiscal pode comprometer a queda futura.”
🔍 Cenário desafiador exige prudência e previsibilidade
Com a elevação da projeção para o dólar e a manutenção das expectativas de inflação e juros, o mercado sinaliza um cenário de incerteza moderada para 2025. A pressão cambial tende a continuar enquanto o Brasil não demonstrar um compromisso sólido com o ajuste fiscal e a estabilidade institucional.
A leitura geral entre os economistas ouvidos para esta matéria é que, embora não haja sinal de descontrole macroeconômico, o momento exige vigilância e prudência. O mercado continuará acompanhando, nas próximas semanas, as discussões sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a definição da nova meta fiscal e os impactos das crises geopolíticas no exterior.
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