PF mira ex-diretores da Americanas em nova fase de investigação sobre fraude bilionária

PF mira ex-diretores da Americanas em nova fase de investigação sobre fraude bilionária
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 26 de junho de 2026 0

Operação Disclosure apura manipulação contábil que teria provocado rombo estimado em R$ 24 bilhões e atingido investidores, bancos, fornecedores e o mercado financeiro

A Polícia Federal deflagrou uma nova fase da Operação Disclosure para aprofundar as investigações sobre a fraude contábil atribuída a ex-diretores das Lojas Americanas. O caso, considerado um dos maiores escândalos corporativos recentes do país, envolve suspeitas de manipulação de balanços, fraude financeira, uso de informação privilegiada e prejuízo bilionário a investidores, bancos, fornecedores e acionistas.

Segundo informações publicadas pelo Metrópoles, a ação teve como alvo ex-diretores da companhia e apura um rombo estimado em R$ 24 bilhões. A operação contou com mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, com apoio da Comissão de Valores Mobiliários e do Ministério Público Federal.

A investigação mira a forma como a empresa teria escondido dívidas e apresentado ao mercado uma situação financeira diferente da real. O ponto central do caso envolve operações conhecidas como “risco sacado”, mecanismo usado por empresas para antecipar pagamentos a fornecedores por meio de bancos.

Na prática, o fornecedor recebe antes da instituição financeira, e a empresa compradora passa a dever ao banco. O problema, segundo a apuração, é que parte dessas operações não teria sido registrada corretamente como dívida no balanço da Americanas. Com isso, os demonstrativos financeiros indicavam uma saúde financeira maior do que a existente.

De acordo com o InfoMoney, as inconsistências vieram à tona em janeiro de 2023, quando a Americanas comunicou ao mercado um rombo inicialmente estimado em R$ 20 bilhões. No dia seguinte, as ações da companhia despencaram 77%, saindo de R$ 12 para R$ 2,72, com perda de mais de R$ 8 bilhões em valor de mercado. Poucos dias depois, a varejista entrou em recuperação judicial.

A dimensão da fraude aumentou o debate sobre governança corporativa, auditoria e responsabilidade de executivos. Em reportagem do Estadão Conteúdo reproduzida pelo InfoMoney, especialistas em governança e mercado financeiro afirmaram que, em tese, um rombo dessa magnitude dificilmente passaria despercebido por gestores ou auditores com acesso aos dados da companhia.

O analista Fernando Ferrer, da Empiricus Research, explicou ao Estadão Conteúdo, em material publicado pelo InfoMoney, que os relatórios enviados ao mercado apresentavam apenas um resumo das atividades financeiras. Sem acesso a todos os números, analistas externos conseguiam perceber deterioração do caixa, mas não necessariamente o tamanho real do passivo escondido.

O caso também gerou reflexão sobre a atuação das auditorias. Sandra Peres, diretora de relações com empresas da Apimec Brasil, afirmou ao InfoMoney que escândalos dessa dimensão acendem alerta no mercado e podem pressionar mudanças em regras de governança, regulação e fiscalização.

Já Thiago Figueiredo, gestor e diretor de investimentos da Intrabank, avaliou ao InfoMoney que o episódio levou auditores e analistas a observarem com mais atenção operações de crédito entre empresas e fornecedores, especialmente o risco sacado. Segundo ele, o mercado passou a ficar mais preparado para medir o impacto dessas operações nos balanços.

O presidente do Instituto Brasileiro da Insolvência, Breno Miranda, também disse ao InfoMoney que empresas de auditoria tendem a ser mais rigorosas na verificação de dados e informações após o escândalo.

A Polícia Federal afirma que a fraude teria maquiado os resultados da companhia para demonstrar falso aumento de caixa e valorizar artificialmente os papéis da Americanas na bolsa. Com os números inflados, executivos investigados teriam recebido bônus milionários e obtido ganhos com a venda de ações.

Entre os crimes investigados estão manipulação de mercado, uso de informação privilegiada, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Os investigados ainda têm direito à defesa, e eventuais responsabilidades dependem do avanço das investigações e de decisão judicial.

Para trabalhadores, fornecedores e consumidores, o caso vai além do mercado financeiro. A crise afetou a imagem da empresa, pressionou sua operação, reduziu a confiança de credores e colocou em discussão a capacidade de fiscalização sobre grandes companhias brasileiras.

Para investidores, a fraude reforça a importância de avaliar não apenas resultados divulgados, mas também qualidade da governança, nível de endividamento, transparência das demonstrações financeiras e histórico de gestão.

O caso Americanas se tornou um marco negativo no mercado brasileiro porque expôs uma falha estrutural: empresas de grande porte podem apresentar números aparentemente sólidos enquanto escondem riscos relevantes em suas demonstrações. A nova fase da Operação Disclosure tenta responder quem sabia, quem participou e quem se beneficiou da fraude bilionária.

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