Racha sem freio: Caiado chama Eduardo Bolsonaro de “Pateta” e green card vira arma na guerra da direita
Pré-candidato do PSD acusa filho de Jair Bolsonaro de prejudicar produtores, indústria e empregos; Eduardo reage, cita ministros do STF e amplia divisão no campo conservador
A disputa pelo comando da direita brasileira saiu definitivamente dos bastidores e se transformou em uma guerra pública entre Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD à Presidência da República, e Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e irmão do presidenciável Flávio Bolsonaro.
O novo confronto começou após a confirmação de que Eduardo recebeu autorização de residência permanente nos Estados Unidos, o chamado green card. Caiado utilizou o episódio para questionar a atuação política do ex-parlamentar em território norte-americano e acusá-lo de colocar interesses pessoais acima dos prejuízos enfrentados pelo Brasil.
Sem mencionar diretamente o nome de Eduardo, Caiado publicou uma enquete perguntando qual personagem vive nos Estados Unidos, é atrapalhado e sempre faz alguma besteira. Entre as alternativas apresentadas estavam Mickey, Pateta e Pato Donald.
Na sequência, deixou claro o alvo da provocação ao afirmar que o personagem da Disney seria inofensivo, enquanto o “Pateta da política brasileira” poderia causar prejuízos à indústria, às exportações e aos empregos no país.
A publicação foi interpretada como um ataque direto a Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde o início de 2025.
Green card entra na campanha
Eduardo confirmou que recebeu o green card na categoria EB-1A, destinada a estrangeiros reconhecidos por habilidades extraordinárias em áreas como ciência, artes, negócios e esportes. Segundo ele, o processo para obtenção da residência permanente começou há aproximadamente um ano.
O documento permite que Eduardo more e trabalhe nos Estados Unidos por tempo indeterminado. O ex-deputado afirmou que somente considera retornar ao Brasil caso seja beneficiado por uma anistia.
Caiado aproveitou a concessão do documento para direcionar o debate aos setores produtivos brasileiros. Segundo ele, quem precisa de facilidades para entrar no mercado norte-americano é o produtor rural, e não um político brasileiro interessado em permanecer nos Estados Unidos.
O pré-candidato afirmou que o Brasil precisa fortalecer o agronegócio, defender a indústria e proteger os empregos. Para Caiado, a discussão não seria sobre turismo ou residência no exterior, mas sobre “autoridade moral para governar”.
A provocação ocorre no momento em que determinados produtos brasileiros enfrentam uma tarifa de 25% para entrar nos Estados Unidos. Eduardo e Flávio Bolsonaro negam ter solicitado ao governo norte-americano a adoção de tarifas contra as exportações do Brasil.
Eduardo reage e aponta relação com o STF
Eduardo Bolsonaro respondeu acusando Caiado de ignorar condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e de manter proximidade com integrantes do Supremo Tribunal Federal.
O ex-deputado afirmou que quem precisaria de green card seriam fazendeiros condenados no que chamou ironicamente de “golpe da Disney”. Também questionou se o silêncio de Caiado seria o preço pago para participar de “coquetéis do STF e da elite de Brasília”.
Na publicação, Eduardo divulgou fotografias de Caiado ao lado dos ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino. Os dois receberam o título de cidadão goiano durante a gestão de Caiado em Goiás.
Eduardo argumentou que a concessão das homenagens demonstraria como Caiado agiria caso chegasse à Presidência da República. A resposta atingiu justamente um dos principais discursos do pré-candidato do PSD: a defesa de uma anistia ampla aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
A deputada federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, também entrou na discussão e questionou quando Caiado voltaria a direcionar seus ataques contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Alvo principal é Flávio Bolsonaro
Apesar de o embate ocorrer diretamente com Eduardo, o alvo político de Caiado é Flávio Bolsonaro.
A estratégia do pré-candidato do PSD é se apresentar como uma alternativa de direita capaz de derrotar Lula no segundo turno. Para isso, Caiado precisa retirar votos de Flávio e atrair conservadores que não desejam apoiar a candidatura apresentada pela família Bolsonaro.
Nas últimas semanas, Caiado endureceu o discurso contra o senador do PL. Ele já afirmou que votar em Flávio poderia ajudar na reeleição de Lula e questionou se o filho do ex-presidente reúne condições políticas para comandar o país.
Caiado também passou a responsabilizar o próprio Flávio pelos problemas enfrentados pela pré-campanha do PL. O movimento representa uma mudança de estratégia, já que o ex-governador concentrava anteriormente seus ataques no governo petista.
Aliados de Caiado trabalham para polarizar a disputa dentro da própria direita. O objetivo é convencer o eleitor conservador de que a escolha não precisa ficar restrita a um integrante da família Bolsonaro.
União fica cada vez mais distante
O confronto reduz as possibilidades de uma composição entre Caiado e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
A estratégia do PL é levar Flávio para a etapa final da eleição e, posteriormente, receber o apoio dos demais candidatos conservadores. As críticas de Caiado, entretanto, demonstram que essa transferência de apoio não será automática.
A relação entre Caiado e a família Bolsonaro já atravessou diferentes momentos. O goiano apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, participou de manifestações pela anistia dos condenados pelo 8 de janeiro e chegou a classificar o ex-presidente como uma das principais lideranças políticas do país.
Ao mesmo tempo, Caiado criticou a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia e, nas eleições municipais de 2024, esteve em palanque diferente daquele apoiado pelo ex-presidente em Goiás.
Agora, a disputa é nacional.
O green card de Eduardo deixou de ser apenas uma questão migratória e passou a ser utilizado como arma eleitoral. Caiado tenta associar a permanência do ex-deputado nos Estados Unidos aos prejuízos comerciais enfrentados pelo Brasil. Eduardo reage apresentando o adversário como alguém próximo do STF e distante da base bolsonarista.
O resultado é uma direita ainda mais dividida, com ataques públicos, acusações pessoais e pouca perspectiva de reconciliação. Enquanto Lula observa o confronto do outro lado, Caiado, Flávio e Eduardo disputam quem terá autoridade para falar em nome do eleitor conservador nas eleições de outubro.