Racha sem freio: Caiado chama Eduardo Bolsonaro de “Pateta” e green card vira arma na guerra da direita

Racha sem freio: Caiado chama Eduardo Bolsonaro de “Pateta” e green card vira arma na guerra da direita
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 23 de julho de 2026 0

Pré-candidato do PSD acusa filho de Jair Bolsonaro de prejudicar produtores, indústria e empregos; Eduardo reage, cita ministros do STF e amplia divisão no campo conservador

A disputa pelo comando da direita brasileira saiu definitivamente dos bastidores e se transformou em uma guerra pública entre Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD à Presidência da República, e Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e irmão do presidenciável Flávio Bolsonaro.

O novo confronto começou após a confirmação de que Eduardo recebeu autorização de residência permanente nos Estados Unidos, o chamado green card. Caiado utilizou o episódio para questionar a atuação política do ex-parlamentar em território norte-americano e acusá-lo de colocar interesses pessoais acima dos prejuízos enfrentados pelo Brasil.

Sem mencionar diretamente o nome de Eduardo, Caiado publicou uma enquete perguntando qual personagem vive nos Estados Unidos, é atrapalhado e sempre faz alguma besteira. Entre as alternativas apresentadas estavam Mickey, Pateta e Pato Donald.

Na sequência, deixou claro o alvo da provocação ao afirmar que o personagem da Disney seria inofensivo, enquanto o “Pateta da política brasileira” poderia causar prejuízos à indústria, às exportações e aos empregos no país.

A publicação foi interpretada como um ataque direto a Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde o início de 2025.

Green card entra na campanha

Eduardo confirmou que recebeu o green card na categoria EB-1A, destinada a estrangeiros reconhecidos por habilidades extraordinárias em áreas como ciência, artes, negócios e esportes. Segundo ele, o processo para obtenção da residência permanente começou há aproximadamente um ano.

O documento permite que Eduardo more e trabalhe nos Estados Unidos por tempo indeterminado. O ex-deputado afirmou que somente considera retornar ao Brasil caso seja beneficiado por uma anistia.

Caiado aproveitou a concessão do documento para direcionar o debate aos setores produtivos brasileiros. Segundo ele, quem precisa de facilidades para entrar no mercado norte-americano é o produtor rural, e não um político brasileiro interessado em permanecer nos Estados Unidos.

O pré-candidato afirmou que o Brasil precisa fortalecer o agronegócio, defender a indústria e proteger os empregos. Para Caiado, a discussão não seria sobre turismo ou residência no exterior, mas sobre “autoridade moral para governar”.

A provocação ocorre no momento em que determinados produtos brasileiros enfrentam uma tarifa de 25% para entrar nos Estados Unidos. Eduardo e Flávio Bolsonaro negam ter solicitado ao governo norte-americano a adoção de tarifas contra as exportações do Brasil.

Eduardo reage e aponta relação com o STF

Eduardo Bolsonaro respondeu acusando Caiado de ignorar condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e de manter proximidade com integrantes do Supremo Tribunal Federal.

O ex-deputado afirmou que quem precisaria de green card seriam fazendeiros condenados no que chamou ironicamente de “golpe da Disney”. Também questionou se o silêncio de Caiado seria o preço pago para participar de “coquetéis do STF e da elite de Brasília”.

Na publicação, Eduardo divulgou fotografias de Caiado ao lado dos ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino. Os dois receberam o título de cidadão goiano durante a gestão de Caiado em Goiás.

Eduardo argumentou que a concessão das homenagens demonstraria como Caiado agiria caso chegasse à Presidência da República. A resposta atingiu justamente um dos principais discursos do pré-candidato do PSD: a defesa de uma anistia ampla aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

A deputada federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, também entrou na discussão e questionou quando Caiado voltaria a direcionar seus ataques contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Alvo principal é Flávio Bolsonaro

Apesar de o embate ocorrer diretamente com Eduardo, o alvo político de Caiado é Flávio Bolsonaro.

A estratégia do pré-candidato do PSD é se apresentar como uma alternativa de direita capaz de derrotar Lula no segundo turno. Para isso, Caiado precisa retirar votos de Flávio e atrair conservadores que não desejam apoiar a candidatura apresentada pela família Bolsonaro.

Nas últimas semanas, Caiado endureceu o discurso contra o senador do PL. Ele já afirmou que votar em Flávio poderia ajudar na reeleição de Lula e questionou se o filho do ex-presidente reúne condições políticas para comandar o país.

Caiado também passou a responsabilizar o próprio Flávio pelos problemas enfrentados pela pré-campanha do PL. O movimento representa uma mudança de estratégia, já que o ex-governador concentrava anteriormente seus ataques no governo petista.

Aliados de Caiado trabalham para polarizar a disputa dentro da própria direita. O objetivo é convencer o eleitor conservador de que a escolha não precisa ficar restrita a um integrante da família Bolsonaro.

União fica cada vez mais distante

O confronto reduz as possibilidades de uma composição entre Caiado e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.

A estratégia do PL é levar Flávio para a etapa final da eleição e, posteriormente, receber o apoio dos demais candidatos conservadores. As críticas de Caiado, entretanto, demonstram que essa transferência de apoio não será automática.

A relação entre Caiado e a família Bolsonaro já atravessou diferentes momentos. O goiano apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, participou de manifestações pela anistia dos condenados pelo 8 de janeiro e chegou a classificar o ex-presidente como uma das principais lideranças políticas do país.

Ao mesmo tempo, Caiado criticou a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia e, nas eleições municipais de 2024, esteve em palanque diferente daquele apoiado pelo ex-presidente em Goiás.

Agora, a disputa é nacional.

O green card de Eduardo deixou de ser apenas uma questão migratória e passou a ser utilizado como arma eleitoral. Caiado tenta associar a permanência do ex-deputado nos Estados Unidos aos prejuízos comerciais enfrentados pelo Brasil. Eduardo reage apresentando o adversário como alguém próximo do STF e distante da base bolsonarista.

O resultado é uma direita ainda mais dividida, com ataques públicos, acusações pessoais e pouca perspectiva de reconciliação. Enquanto Lula observa o confronto do outro lado, Caiado, Flávio e Eduardo disputam quem terá autoridade para falar em nome do eleitor conservador nas eleições de outubro.

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