“Não basta dizer para um menino ‘não seja agressivo’”, diz CEO da Ronaldo Academy ao DT; dados do Brasil e Tocantins acendem alerta
Antes de aprender a chutar, driblar, marcar ou fazer um gol, uma criança também pode aprender dentro de uma escolinha de futebol a lidar com a raiva, aceitar uma frustração, respeitar limites e resolver conflitos sem recorrer à agressão. Em entrevista ao Diário Tocantinense (DT), o CEO da Ronaldo Academy, Roberto Joaquim, defendeu que o esporte pode ocupar um espaço importante na prevenção da violência, especialmente quando o trabalho envolve não apenas os alunos, mas também pais e responsáveis.
A discussão ganha ainda mais força diante de novos dados sobre violência contra mulheres no Brasil e de números preocupantes registrados no Tocantins. A segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, divulgada em agosto de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), identificou que, nos dias em que há partidas de futebol, os registros de ameaça contra mulheres aumentam 27,4%, enquanto as ocorrências de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica crescem 28,8%.
Entre meninas e mulheres de 15 a 29 anos, o impacto encontrado pelo levantamento é ainda maior: os registros de ameaças e agressões físicas apresentam crescimento de aproximadamente 44% em dias de jogos. O estudo analisou dados de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre entre 2023 e 2025. Portanto, os percentuais não são específicos do Tocantins, mas revelam um fenômeno nacional que amplia o debate sobre o papel social do futebol.
A base utilizada pelo estudo reuniu 219.595 registros de ameaça e 88.720 ocorrências de lesão corporal, ultrapassando 308 mil registros policiais nas cinco capitais pesquisadas durante os três anos analisados. Os pesquisadores reforçam que os resultados não significam que o futebol seja a causa da violência doméstica. O que os dados demonstram é uma associação entre os dias de partidas e o aumento das ocorrências, com o futebol funcionando, em determinados contextos, como catalisador de tensões que já existem.
É justamente nesse ponto que Roberto Joaquim chama atenção para o trabalho que pode ser realizado desde a infância.
“Não basta dizer para um menino ‘não seja agressivo’. Precisamos ensinar o que ele pode fazer no lugar da agressão”, afirmou o CEO da Ronaldo Academy ao DT.
Para Joaquim, ensinar uma criança a controlar determinado comportamento é apenas uma parte do processo. É necessário oferecer alternativas concretas para que ela consiga compreender e expressar aquilo que sente.
“Como ele comunica a raiva? Como lida com uma frustração? Como reage quando alguém diz não? Como demonstra carinho? Como pede desculpas? Como reconhece o outro? Como resolve um conflito sem usar força ou violência? Isso também se aprende”, explicou.
A reflexão encontra no próprio futebol um ambiente repleto dessas situações. Durante uma partida, crianças precisam lidar com derrota, erro, substituição, cobrança, provocação, decisões do árbitro e resultados diferentes daqueles que esperavam. Para a Ronaldo Academy, esses momentos podem deixar de ser vistos apenas pelo aspecto esportivo e se transformar também em oportunidades de desenvolvimento emocional.
A Ronaldo Academy foi fundada por Ronaldo Nazário, o Fenômeno, e trabalha com uma metodologia que reúne formação esportiva e desenvolvimento psicossocial. Atualmente, a rede informa possuir cerca de 6 mil alunos ativos e 40 unidades em funcionamento. Roberto Joaquim ocupa o cargo de CEO da operação brasileira.
Segundo o executivo, esse trabalho não fica restrito à teoria. Entre as experiências realizadas com os alunos está uma dinâmica em que pais e filhos permanecem abraçados durante aproximadamente 40 segundos. Em outra atividade, chamada de V0, familiares ficam frente a frente e são estimulados a manter contato visual, reconhecer qualidades e verbalizar sentimentos positivos.
“Parece algo extremamente simples, mas quantas famílias passam dias sem parar, olhar uma para a outra e ter um momento verdadeiro de conexão?”, questionou Joaquim.
As atividades também acontecem entre os próprios alunos. A proposta, segundo ele, é trabalhar vínculo, empatia, respeito, reconhecimento e comunicação, fazendo com que a criança não aprenda somente aquilo que não deve fazer, mas desenvolva ferramentas para substituir comportamentos agressivos.
“Uma criança que aprende a olhar nos olhos, reconhecer o outro, expressar afeto, receber um elogio, elogiar, respeitar e falar sobre suas emoções está desenvolvendo ferramentas para lidar melhor com seus conflitos”, afirmou.
O debate ganha um peso particular quando os números nacionais são observados. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2026, registrou 286.270 casos de lesão corporal dolosa contra mulheres em contexto de violência doméstica em 2025, aumento de 2,6% em relação ao ano anterior. O país também contabilizou 788.531 registros de ameaça contra mulheres e chegou ao recorde de 1.571 feminicídios.
No Tocantins, os dados também acendem um sinal de alerta. O Estado registrou 2.343 mulheres vítimas de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica em 2025, contra 2.209 registros no ano anterior. O crescimento foi de 5,3%, e a taxa tocantinense chegou a aproximadamente 297 casos para cada 100 mil mulheres.
O dado mais grave aparece nos feminicídios. O Tocantins passou de 13 vítimas em 2024 para 20 em 2025, crescimento de 52,8% em apenas um ano. A taxa chegou a 2,5 feminicídios para cada 100 mil mulheres, acima da taxa nacional de 1,4. Ao todo, o Estado registrou 37 homicídios de mulheres em 2025, e mais da metade deles foi classificada como feminicídio.
Os números tocantinenses não podem ser diretamente relacionados aos dias de partidas porque o Estado não integrou a amostra específica da pesquisa sobre futebol e violência doméstica. Ainda assim, os indicadores mostram que a violência contra mulheres também representa um problema concreto no Tocantins e reforçam a importância de discutir prevenção nos mais diversos ambientes sociais, incluindo escolas, projetos esportivos, clubes e escolinhas de futebol.
O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também identificou que a violência se concentra fortemente dentro de casa. Entre os registros analisados nas cinco capitais, 62,8% das lesões corporais ocorreram em residências. Nos dias de jogos, o número esperado de ameaças contra jovens de 15 a 29 anos dentro de casa cresce 47,3% em relação aos dias sem partidas.
Para Roberto Joaquim, aproximar a família das atividades desenvolvidas no campo pode ampliar o alcance do trabalho feito com a criança.
“Talvez esteja aí uma das maiores oportunidades que uma escola de futebol possui: não impactar somente a criança que está dentro do campo, mas também a família que está do lado de fora”, destacou ao DT.
Na avaliação do CEO, aquilo que a criança vivencia durante os treinamentos pode ultrapassar os limites do gramado. Da mesma maneira, pais e responsáveis que participam das atividades podem ser levados a refletir sobre a própria forma de reagir diante de conflitos, frustrações e situações de tensão.
“Uma criança emocionalmente mais preparada influencia sua casa. Um pai que passa a refletir sobre o próprio comportamento influencia seu filho. E uma família que aprende novas formas de comunicação e resolução de conflitos tem mais ferramentas para construir relações baseadas em respeito, diálogo e afeto”, afirmou.
O trabalho realizado por uma escolinha de futebol, evidentemente, não substitui políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica, medidas protetivas, atuação policial, acolhimento especializado ou responsabilização de agressores. A proposta está em uma etapa anterior: a prevenção e a formação de novas gerações.
O próprio estudo do FBSP recomenda que clubes, federações, torcidas e poder público deixem de tratar o tema apenas de forma pontual e promovam ações permanentes de prevenção à violência contra mulheres, incluindo iniciativas destinadas ao desenvolvimento socioemocional de jovens e discussões sobre padrões de masculinidade.
No Tocantins, onde milhares de crianças participam de escolinhas, projetos sociais, categorias de base e atividades esportivas nos municípios, a discussão abre uma frente que vai muito além da formação de futuros jogadores. O campo pode ser também um espaço para ensinar que força não significa violência, que uma derrota não justifica agressão e que frustração pode ser enfrentada por meio do diálogo.
Para Joaquim, é justamente nesse ponto que o esporte pode deixar uma contribuição que ultrapassa qualquer placar.
“É assim que acreditamos que o esporte pode fazer parte da prevenção da violência: não apenas condenando a agressão depois que ela acontece, mas ajudando a formar, desde a infância, pessoas que aprendam outras maneiras de lidar com suas emoções e seus conflitos”, concluiu o CEO da Ronaldo Academy ao Diário Tocantinense.