Caso Vorcaro coloca Lagoinha no centro das atenções; igreja mantém unidade em Palmas e DT explica o que há sobre o Tocantins
Relatório do Coaf apontou R$ 57,1 milhões em movimentações consideradas atípicas na Lagoinha Belvedere, administrada pelo cunhado de Daniel Vorcaro. Denominação também possui igreja oficialmente registrada em Palmas, mas, até o momento, não há documento público apontando a unidade tocantinense como participante das operações investigadas.
O avanço das investigações relacionadas ao Banco Master colocou a Igreja Batista da Lagoinha entre os nomes de maior repercussão dos últimos dias após a divulgação de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, que apontou R$ 57,1 milhões em movimentações consideradas atípicas em uma conta ligada à Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte. O caso desperta atenção também no Tocantins porque a denominação possui presença oficialmente constituída na capital do Estado.
Em Palmas funciona a Igreja Batista da Lagoinha de Palmas – TO, organização religiosa registrada sob o CNPJ 42.627.365/0001-90. A instituição foi aberta oficialmente em 2 de junho de 2021 e permanece com situação cadastral ativa. O endereço registrado é na Quadra ARNE 12, Alameda 18, lote AI-4, Plano Diretor Norte, em Palmas.
Registros cadastrais públicos apontam Lucas Vinicius da Veiga Feitoza Borges como presidente da organização religiosa em Palmas. É necessário, entretanto, fazer uma distinção fundamental: a unidade citada nos documentos do Coaf não é a igreja de Palmas. As movimentações de R$ 57,1 milhões foram identificadas na conta da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, localizada em Belo Horizonte, Minas Gerais.
A unidade era administrada por Fabiano Campos Zettel, empresário e ex-pastor da Lagoinha, além de cunhado do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo as informações tornadas públicas a partir do relatório financeiro, a conta analisada movimentou aproximadamente R$ 57,1 milhões entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025.
O volume chamou a atenção porque o faturamento anual presumido informado para aquela unidade estava na casa de aproximadamente R$ 950 mil. Do total movimentado, foram identificados cerca de R$ 28,49 milhões em créditos e R$ 28,61 milhões em débitos.
Fabiano Zettel aparece como um dos principais responsáveis pelos recursos que entraram na conta. Os dados divulgados apontam que ele realizou 26 transferências, que juntas chegaram a aproximadamente R$ 19,2 milhões. Isso significa que uma parcela expressiva dos recursos recebidos pela unidade investigada partiu diretamente do empresário que, além de administrar a igreja naquele período, possui ligação familiar com Daniel Vorcaro.
Outros nomes também aparecem entre os responsáveis por transferências identificadas pelo Coaf. Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, realizou depósitos que somaram aproximadamente R$ 120 mil.
Também aparecem movimentações feitas por Fabíola de Almeida Macedo Vorcaro, ex-mulher do ex-banqueiro, e por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Mourão realizou 11 transferências que, segundo o relatório divulgado, totalizaram aproximadamente R$ 22 mil.
Do outro lado da conta, milhões de reais foram transferidos para empresas, incluindo construtoras e incorporadoras. As autoridades analisam justamente a origem, o caminho e o destino desses recursos para compreender se as operações guardam relação com outros fatos investigados no caso Banco Master. A divulgação dos dados ganhou ainda mais repercussão porque Fabiano Zettel já havia entrado no radar das autoridades nas apurações relacionadas a Daniel Vorcaro.
Zettel foi preso durante uma das fases da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas envolvendo operações financeiras ligadas ao Banco Master. A unidade Lagoinha Belvedere encerrou suas atividades em 2026.
Diante da repercussão, a Lagoinha Global, presidida pelo pastor André Valadão, afirmou que as unidades locais possuem autonomia administrativa e financeira. Segundo a posição divulgada pela instituição, cada igreja administra localmente suas receitas, despesas, contas, investimentos e obras.
A denominação afirmou ainda que sabia da existência de investimentos destinados a reformas e melhorias da unidade do Belvedere, mas declarou que não tinha conhecimento da dimensão das movimentações financeiras agora reveladas. A Lagoinha Global também declarou que não captou, administrou ou recebeu os valores movimentados especificamente pela unidade administrada por Zettel.
É justamente essa estrutura que torna necessária cautela ao analisar a presença da Lagoinha em outros estados. A existência da Igreja Batista da Lagoinha de Palmas – TO não permite concluir que a unidade tocantinense tenha participado das transações identificadas em Minas Gerais.
Até a publicação desta reportagem, não foi localizado documento público do Coaf, da Polícia Federal ou do Supremo Tribunal Federal indicando que a Igreja Batista da Lagoinha de Palmas tenha recebido parte dos R$ 57,1 milhões, enviado recursos à unidade Belvedere ou participado das operações financeiras consideradas atípicas.
Também não há, nos documentos públicos consultados até aqui, indicação de que seu presidente local esteja sendo investigado por esses fatos. A igreja de Palmas possui personalidade jurídica própria, CNPJ específico e registro separado daquele da unidade mineira envolvida nas movimentações analisadas.
Por isso, o ponto de conexão atualmente comprovável é institucional e denominacional: existe uma Igreja Batista da Lagoinha oficialmente registrada e em funcionamento na capital tocantinense, enquanto outra unidade da denominação, em Belo Horizonte, tornou-se objeto de atenção das autoridades por causa das movimentações financeiras identificadas pelo Coaf.
A própria Lagoinha Global afirma possuir centenas de igrejas espalhadas pelo Brasil e pelo exterior e sustenta que suas unidades têm administrações locais.
O caso envolvendo a unidade Belvedere ganhou dimensão nacional depois da abertura de documentos relacionados às investigações do Banco Master e de Daniel Vorcaro.
O relatório do Coaf passou a ser considerado relevante pelas autoridades justamente porque pode ajudar a reconstruir a rede de movimentações financeiras de pessoas próximas ao ex-controlador do Master.
A Polícia Federal busca identificar a origem e o destino de diferentes operações financeiras, e parte dos documentos permanece ligada a procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal.
A presença da Lagoinha no Tocantins, portanto, coloca a denominação naturalmente no interesse dos leitores do Estado, mas não autoriza atribuir à igreja de Palmas responsabilidade por fatos ocorridos em outra unidade.
O Diário Tocantinense seguirá acompanhando a abertura de documentos do caso Banco Master para identificar se surgem referências concretas ao Tocantins, pessoas, empresas ou instituições religiosas sediadas no Estado.
O espaço permanece aberto para manifestação da Igreja Batista da Lagoinha de Palmas – TO, da Lagoinha Global e das demais pessoas ou instituições mencionadas.