Feminicídio no Tocantins: tentativas crescem 50%, casos chegam à Justiça e condenações passam de 20 anos

Feminicídio no Tocantins: tentativas crescem 50%, casos chegam à Justiça e condenações passam de 20 anos
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 1 de outubro de 2026 12

O Tocantins chegou a 2026 diante de um cenário que exige atenção no enfrentamento à violência extrema contra mulheres. Levantamento já publicado pelo Diário Tocantinense, a partir das estatísticas disponibilizadas pela Secretaria da Segurança Pública do Estado, mostrou aumento de 50% nas tentativas de feminicídio durante o primeiro semestre.

Foram 33 tentativas entre janeiro e junho deste ano, contra 22 no mesmo período de 2025. Somando tentativas e crimes consumados, o Tocantins contabilizou 37 ocorrências no primeiro semestre de 2026. No mesmo período do ano passado, haviam sido 27.

Os feminicídios consumados apresentaram movimento diferente: passaram de cinco no primeiro semestre de 2025 para quatro em 2026, redução de 20%. Ainda assim, o crescimento das tentativas mostra que mais situações de violência contra mulheres chegaram ao nível de ataques potencialmente letais. Dos quatro feminicídios consumados registrados no primeiro semestre deste ano, dois ocorreram em Araguaína. Palmas registrou um e Peixe outro.

O histórico recente ajuda a dimensionar o problema. Em 2024, as estatísticas apontaram 84 ocorrências entre tentativas e feminicídios consumados, com 11 mortes. Em 2025, foram 77 registros, dos quais 18 terminaram em morte.

Somando 2024, 2025 e o primeiro semestre de 2026, chegaram a 198 as ocorrências classificadas entre tentativas e feminicídios consumados, sendo 33 casos fatais. Ao mesmo tempo em que os números policiais mostram a extensão da violência, processos julgados em diferentes comarcas permitem acompanhar a resposta judicial a parte desses crimes.

Em maio, o Tribunal do Júri de Gurupi condenou Fagner Fernandes Neres a 45 anos de prisão por tentativa de feminicídio e estupro contra a ex-companheira. Os crimes ocorreram em agosto de 2025.

Em setembro, também em Gurupi, Carlos Roberto de Souza foi condenado a 24 anos de prisão pelas tentativas de homicídio contra o filho e feminicídio contra a então companheira. Segundo o processo, ambos foram atacados com faca dentro de uma residência em Aliança do Tocantins.

Outro julgamento recente ocorreu em Formoso do Araguaia. Em 29 de setembro, o Tribunal do Júri condenou um homem a 29 anos de prisão por feminicídio e ocultação de cadáver. O avanço dos julgamentos também aparece nos indicadores do próprio Judiciário.

Em setembro, o TJTO informou que o primeiro grau da Justiça tocantinense havia alcançado 100,41% de cumprimento da Meta 8 do Conselho Nacional de Justiça, voltada à priorização de processos de feminicídio. A meta nacional determina o julgamento, até dezembro, de pelo menos 75% dos processos de feminicídio distribuídos até o fim de 2024. A juíza Gisele Veronezi, gestora da Meta 8 no primeiro grau, afirmou que a prioridade conferida aos processos representa parte da resposta institucional à violência de gênero.

O desempenho do Judiciário, entretanto, não elimina o desafio preventivo revelado pelos registros policiais.O crescimento das tentativas reforça que o enfrentamento ao feminicídio não pode começar apenas quando o caso chega ao Tribunal do Júri.

A prevenção passa pelo registro de ameaças, acesso a medidas protetivas, atendimento policial especializado, rede de acolhimento, assistência social e identificação precoce de escaladas de violência dentro de relacionamentos. Mulheres em situação de violência podem buscar auxílio pelo telefone 190, em situações de emergência, ou pelo Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher.

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