Portelinhando Crônicas: Entre Blindagens e Anistias — O Nunca Sai de Cena

Portelinhando Crônicas: Entre Blindagens e Anistias — O Nunca Sai de Cena
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 28 de novembro de 2025 14

Brasília nunca dorme, nunca descansa e, principalmente, nunca perde a chance de surpreender. O enredo político da capital federal parece escrito por roteiristas que descobriram no caos uma fonte inesgotável de inspiração. A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, longe de ser apenas mais uma manchete histórica, funcionou como o estopim para um daqueles movimentos que só o teatro político brasileiro sabe produzir: uma convocação emergencial do Partido Liberal, marcada por Valdemar Costa Neto para esta tarde, às 14h, como quem chama todo o elenco para realinhar o script antes do próximo ato.

Entre as pautas que devem ocupar a mesa redonda, uma se destaca: a proposta de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Uma pauta que retorna com a frequência de um personagem que se recusa a deixar a novela, insistindo em dizer ao público que ainda tem algo a entregar — mesmo quando não tem. Afinal, poucas expressões representam tão bem a elasticidade moral da política brasileira quanto a palavra “anistia”, sempre pronta para ressurgir quando convém.

Enquanto isso, a famosa PEC da Blindagem, projetada para proteger parlamentares de investigações criminais, segue esquecida em algum canto da gaveta legislativa. Por ora, permanece adormecida — mas não morta. O Congresso, esse palco onde velhas peças são ressuscitadas ao sabor das conveniências, sabe muito bem que nenhuma blindagem desaparece para sempre; ela apenas aguarda seu próximo protagonista.

É curioso observar a combinação de gêneros que compõem essa trama nacional. De um lado, o suspense político ganha força com a prisão de um ex-presidente, que mexe com as placas tectônicas de Brasília. Do outro, o partido corre para reorganizar a narrativa, na expectativa de salvar o rei em um tabuleiro que muda a cada amanhecer. E a população? Assiste ao espetáculo entre a indignação e a ironia, como quem paga o ingresso acreditando que desta vez o final será diferente.

Mas a verdade é que, no teatro político brasileiro, a única certeza é a imprevisibilidade. As reuniões emergenciais se multiplicam, as anistias voltam ao centro da mesa, as blindagens reaparecem quando convém e as prisões geram novos capítulos que alimentam o drama do entretenimento institucional.

A plateia — contribuintes, eleitores, espectadores permanentes — aguarda o próximo ato. Espera, talvez, um roteiro menos repetitivo, menos farsesco, mais comprometido com a seriedade que a democracia exige. Mas enquanto isso não acontece, seguimos todos dentro da mesma sala escura, observando personagens que insistem em nunca sair de cena.

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