Alta da abobrinha, arroz e feijão muda hábitos de consumo no Tocantins
A ida ao supermercado começou a exigir mais planejamento, comparação de preços e substituição de produtos em Palmas e Gurupi. A alta recente de alimentos como abobrinha, arroz, alface e feijão passou a alterar hábitos de consumo dentro das famílias tocantinenses e ampliou a sensação de perda do poder de compra entre consumidores.
O que mais chamou atenção nos últimos dias foi a diferença entre os valores praticados nas unidades da Ceasa Tocantins e os preços encontrados nas gôndolas dos supermercados.
Levantamento realizado pelo Diário Tocantinense, com base em cotações da Ceasa e consultas em estabelecimentos varejistas mostrou diferenças que, em alguns produtos, ultrapassam 80%.
A abobrinha italiana, por exemplo, apareceu na Ceasa entre R$ 4,50 e R$ 5,20 o quilo em operações de atacado nesta semana. Já em supermercados de Palmas, o produto foi encontrado entre R$ 8,99 e R$ 11,49 o quilo dependendo da região e da rede.
O alface crespa apresentou comportamento semelhante. Na Ceasa, a unidade variou entre R$ 2,50 e R$ 3,20. No varejo, consumidores encontraram preços entre R$ 4,99 e R$ 6,90.
Já o arroz tipo 1, pacote de cinco quilos, foi encontrado entre R$ 26,90 e R$ 34,90 nos supermercados pesquisados. O feijão carioca variou entre R$ 7,99 e R$ 11,90 o quilo dependendo da marca.
Consumidores mudam hábitos para tentar equilibrar orçamento
A alta dos alimentos já provoca mudanças na rotina de compras das famílias.
Em Gurupi, a aposentada Maria de Lourdes Ferreira, de 63 anos, afirma que começou a reduzir produtos considerados complementares dentro de casa.
“Antes eu levava mais verdura, mais legumes e até frutas diferentes. Agora a gente escolhe mais o que vai comprar porque tudo ficou caro ao mesmo tempo”, relata.
Em Palmas, o motorista Carlos Henrique Mendes, de 44 anos, diz que passou a frequentar atacarejos e feiras para tentar economizar.
“Hoje você entra no supermercado fazendo conta o tempo inteiro. O problema é que não é só um produto caro. Você pega arroz, feijão, verdura, óleo e tudo vai acumulando”, afirma.
A auxiliar administrativa Juliana Alves, de 38 anos, também relata mudança no padrão de consumo.
“Antes eu fazia compra grande para o mês inteiro. Agora estou indo mais vezes porque preciso acompanhar promoção. Dependendo do preço, a gente troca até o cardápio da semana”, conta.
Inflação dos alimentos altera comportamento das famílias
Especialistas apontam que o aumento dos alimentos costuma provocar impacto maior na percepção econômica da população porque atinge diretamente a rotina doméstica.
Segundo o economista Frederico Valverde, especialista em comportamento de consumo e dinâmica inflacionária, o cenário atual vem criando um consumidor mais defensivo.
“O brasileiro consegue adiar a compra de um celular ou de uma roupa, mas ele não consegue deixar de ir ao supermercado. Quando arroz, feijão e hortaliças sobem juntos, isso muda comportamento, sensação de segurança financeira e padrão de consumo”, explica.
De acordo com ele, o país vive atualmente uma inflação fragmentada, em que alguns setores desaceleram enquanto alimentos básicos continuam pressionados.
“O problema dos hortifrutigranjeiros é a volatilidade. Chuva, transporte, combustível, perdas logísticas e clima impactam rapidamente o preço final”, afirma.
Clima, frete e logística pressionam alimentos
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que os custos logísticos e as oscilações climáticas seguem entre os principais fatores de pressão sobre frutas, verduras e legumes em várias regiões do país.
No Centro-Oeste, períodos de irregularidade climática também vêm afetando parte da produção e da distribuição.
Além disso, o aumento do frete nos últimos meses elevou os custos de transporte até os centros consumidores.
Segundo especialistas do setor, produtos mais perecíveis sofrem impacto quase imediato quando há alterações climáticas ou aumento de custos operacionais.
Supermercados ampliam promoções e consumidores buscam atacarejos
O comportamento do consumidor também começou a mudar o funcionamento do varejo.
Em Palmas, supermercados passaram a ampliar campanhas promocionais relâmpago para itens essenciais e intensificaram descontos vinculados a aplicativos próprios.
Atacadistas e atacarejos também registram crescimento na procura de pequenos consumidores tentando fugir dos preços do varejo tradicional.
Outra tendência observada é a substituição de marcas tradicionais por produtos mais baratos e a realização de compras menores ao longo da semana.
Sensação de carrinho vazio aumenta percepção de inflação
Embora parte dos índices nacionais de inflação tenha desacelerado nos últimos meses, a percepção da população continua sendo fortemente influenciada pelos alimentos.
Para economistas, isso acontece porque produtos básicos são comprados semanalmente e possuem impacto emocional maior dentro do orçamento familiar.
“O consumidor sente imediatamente quando o carrinho enche menos e custa mais. Isso cria sensação constante de perda de renda, mesmo quando outros setores da economia desaceleram”, afirma Frederico Valverde.
A avaliação do mercado é que o segundo semestre ainda deve registrar oscilações em produtos hortifrutigranjeiros, principalmente se houver novas pressões climáticas e logísticas.
Enquanto isso, consumidores seguem adaptando hábitos para tentar equilibrar o orçamento em meio à alta silenciosa dos alimentos no dia a dia.