Editorial: PT nacional observa o Tocantins, partido patina no Estado e Ronaldo Dimas volta ao centro do jogo político
O Tocantins entrou de vez no radar da política nacional. Não apenas pela disputa ao Governo, mas pelo peso que o Estado terá na eleição para o Senado, na formação da bancada federal e na montagem dos palanques de 2026. Enquanto Lula busca recompor pontes com senadores e fortalecer sua base em Brasília, o PT tocantinense vive uma contradição difícil de esconder: nacionalmente, o partido quer estratégia, unidade e palanque forte; no Estado, a legenda ainda parece dividida, sem comando claro e sem rumo definido.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, assumiu a missão de organizar a sigla para uma eleição em que Lula precisará de palanques competitivos nos estados e de uma bancada federal mais robusta. No Tocantins, esse desafio é ainda maior, não tem mandatário algum. O partido tem nome nacional, tem interlocução com Brasília e tenta se reposicionar, mas falta ao PT local aquilo que uma eleição majoritária exige desde o início: unidade, direção e capacidade de decisão e mandatos.
A filiação de Kátia Abreu ao PT mexeu com o ambiente político, mas não resolveu o problema. Ao contrário, aumentou a tensão interna. Kátia já teve musculatura eleitoral, já foi uma das figuras mais fortes do Estado, já ocupou o Senado e o Ministério da Agricultura. Mas o momento político atual é outro. No Tocantins de hoje, ela não carrega mais o mesmo peso eleitoral de outros tempos. Nos bastidores, a leitura é de que pesquisas internas teriam colocado seu desempenho abaixo de 15%, sinal de que sua entrada no PT pode ter mais valor simbólico e nacional do que força real para liderar sozinha um projeto estadual.
Esse é o ponto que precisa ser dito com clareza. A chegada de Kátia ao PT não significa, automaticamente, transferência de voto, comando do campo lulista ou liderança natural da oposição no Tocantins. Política tem memória, mas também tem presente. E o presente mostra uma ex-senadora tentando se reposicionar em um Estado onde novos arranjos, novas lideranças e novas estruturas já ocupam espaço.
Também é preciso tratar com cuidado os números comentados nos bastidores. Não se trata de afirmar que haveria R$ 30 milhões destinados ao Tocantins. A conversa mais realista gira em torno de uma estrutura acima de R$ 5 milhões, especialmente voltada para candidaturas federais. Ou seja: o foco do PT nacional não estaria apenas em uma candidatura ao Governo, mas principalmente na formação de chapa para deputado federal, na ampliação da bancada e na entrega de votos para o projeto nacional de Lula.
Essa lógica muda completamente a leitura. O PT nacional não olha para o Tocantins apenas como palanque estadual. Olha como peça de sustentação em Brasília. Lula precisa de senadores aliados, mas também precisa de deputados federais. E, nesse contexto, qualquer recurso, qualquer articulação e qualquer composição terão um objetivo prático: eleger bancada e garantir apoio político no Congresso.
Enquanto isso, o PT tocantinense patina. Há uma ala que enxerga em Irajá uma ponte possível com Brasília. Outra turma mantém diálogo com o grupo de Vicentinho Júnior. Há ainda setores que preferem esperar uma definição nacional, como se Brasília fosse resolver sozinha uma disputa que o diretório estadual não conseguiu organizar. O resultado é um partido dividido entre projetos, vaidades, cálculos e interesses locais.
O problema é que política não espera partido indeciso. Se o PT do Tocantins não define caminho, outros grupos definem por ele. Se não constrói palanque, acaba entrando no palanque dos outros. Se não apresenta projeto, vira apenas espaço de negociação. E, em 2026, isso pode custar caro.
No meio desse vácuo, Ronaldo Dimas voltou ao centro do jogo político. E voltou com força porque representa algo que muitos ainda buscam: base territorial, lembrança administrativa e influência concreta no norte do Tocantins. Sua movimentação no campo da senadora Professora Dorinha não é apenas um gesto de apoio. É uma sinalização estratégica. Dimas conhece Araguaína, conversa com lideranças municipais e tem peso em uma região decisiva para qualquer projeto majoritário.
A presença de Ronaldo Dimas no entorno de Dorinha fortalece a leitura de que a senadora trabalha para consolidar alianças antes que os adversários organizem suas próprias trincheiras. Dorinha tenta somar prefeitos, grupos regionais, lideranças políticas e nomes com densidade eleitoral. Enquanto outros ainda discutem caminhos, ela procura montar estrutura.
Vicentinho Júnior, por sua vez, tenta ocupar o espaço da alternativa. Tem se movimentado, conversa com grupos insatisfeitos e busca apresentar um projeto competitivo. Mas também enfrenta o desafio de transformar discurso em palanque robusto. Ele precisa mostrar quem estará ao seu lado quando a eleição deixar de ser conversa de bastidor e virar disputa real nos municípios.
Irajá segue sendo observado por parte do PT e por setores que o enxergam como ponte com Brasília. Mas também terá de provar se quer ser protagonista ou apenas peça de composição. No Tocantins, nome conhecido ajuda, mas não resolve sozinho. Eleição se ganha com grupo, estrutura, capilaridade e narrativa.
Nesse tabuleiro, Kátia Abreu não pode ser superestimada. Sua filiação ao PT tem peso político e simbólico, mas não apaga o fato de que ela já não parece carregar o mesmo volume eleitoral de antes. Se os números internos realmente apontam desempenho abaixo de 15%, o recado é claro: Kátia pode ajudar a compor, pode tensionar o debate, pode servir como ponte nacional, mas dificilmente entra no jogo atual como força isolada capaz de comandar todo o campo.
A grande pergunta é outra: o PT do Tocantins será instrumento de um projeto nacional ou continuará como um campo de disputa entre grupos locais?
Se quiser ser instrumento nacional, terá de organizar chapa federal, definir posição, conversar com Lula, alinhar com Edinho Silva e entender que 2026 não permite improviso. Se continuar dividido, corre o risco de virar coadjuvante em uma eleição onde poderia ter peso maior.
O Tocantins chega a 2026 com várias frentes abertas. Lula olha para o Senado. O PT nacional olha para a Câmara. Kátia tenta se reposicionar. Irajá é observado por uma ala. Vicentinho busca atrair insatisfeitos. Dorinha agrega aliados. Ronaldo Dimas volta ao centro. E o PT tocantinense, por enquanto, ainda procura uma bússola.
A política é dura com quem demora a decidir. E, no Tocantins, quem não escolher caminho com antecedência pode acabar assistindo aos outros decidirem o futuro.