Editorial: Nem exoneração desmonta Janad, nem bastidor pode colocar Dorinha como culpada: liderança política é maior que cargos e assessores
Saída de Joaquim Maia e Filipe Fernandes provoca leituras políticas, mas reduzir a força de Janad Valcari a dois aliados ou transformar Professora Dorinha em responsável por toda decisão do Governo é simplificar demais o cenário de 2026
As exonerações do ex-prefeito de Porto Nacional, Joaquim Maia, e do ex-vereador de Palmas, Filipe Fernandes, naturalmente provocaram comentários nos bastidores políticos. O Diário Oficial do Estado registrou a saída de Filipe do cargo de Assessor Especial II e de Joaquim Maia da Vice-Presidência Executiva da Agência de Mineração do Estado do Tocantins, com efeitos a partir de 4 de julho.
Os dois são nomes com experiência política e podem contribuir com qualquer construção eleitoral da qual participem. Mas daí a dizer que suas exonerações desmontam, ferem de morte ou retiram o coração de um projeto liderado por Janad Valcari existe uma distância enorme.
Janad não nasceu politicamente dentro de um gabinete do Governo. Não foi um cargo comissionado que a transformou em liderança. E não serão duas exonerações que apagarão a força eleitoral que ela construiu.
Em 2022, Janad recebeu 31.587 votos e se tornou, naquele pleito, a mulher mais votada da história do Tocantins para a Assembleia Legislativa. Antes disso, havia sido vereadora e presidente da Câmara de Palmas. Em 2024, na disputa pela Prefeitura da Capital, recebeu 69.684 votos no segundo turno. Os números ajudam a demonstrar que sua força política não depende exclusivamente de assessores ou articuladores. Joaquim Maia pode ajudar? Claro.
Filipe Fernandes pode ter importância na articulação? Evidentemente. Mas o centro político de Janad continua sendo Janad. É ela quem vai às ruas. É ela quem recebe o voto.
É ela quem carrega o bônus e o ônus de suas decisões. Tratar uma liderança com esse histórico como dependente de dois nomes é, no mínimo, diminuir a própria trajetória da deputada.
E há outra questão que merece ser enfrentada com serenidade: por que qualquer turbulência dentro da estrutura estadual precisa ser imediatamente colocada na conta de Professora Dorinha?
Dorinha é senadora da República. Não é secretária-chefe da Casa Civil e não ocupa o comando administrativo responsável pelas portarias de exoneração do Poder Executivo. Seu mandato e sua atuação institucional estão no Senado Federal. Pode haver impacto político nas decisões de um governo? Sim.
Pode existir desconforto entre aliados? Sim. Pode ser necessário diálogo? Sempre.
Mas atribuir automaticamente a Dorinha a responsabilidade por toda exoneração de alguém ligado a uma liderança política é construir uma culpa por associação.
E política séria precisa ir além disso. Dorinha tem um projeto próprio, uma história própria e um desafio enorme pela frente em 2026. Janad também.
As duas são mulheres fortes, com estilos completamente diferentes. Dorinha carrega experiência institucional, diálogo e anos de atuação no Congresso Nacional.
Janad carrega intensidade, comunicação popular e uma capacidade eleitoral já testada nas urnas. Por que uma precisa ser enfraquecida para a outra existir?
Por que transformar qualquer ruído em rompimento definitivo? E por que a saída de Joaquim Maia e Filipe Fernandes precisa significar, obrigatoriamente, uma crise irreversível?
Talvez a política tocantinense precise aprender a respirar antes de decretar funerais políticos. As exonerações aconteceram. Isso é fato. Que produziram comentários, também é evidente.
Agora, dizer que Janad ficou sem estrutura ou que Dorinha recebeu um golpe eleitoral exige muito mais do que leitura de bastidor.
Janad continua com seu nome. Continua com sua votação. Continua com sua capacidade de mobilização. Dorinha continua com sua trajetória. Continua com sua presença política.
Continua com a responsabilidade de construir pontes e ampliar um projeto que pretende chegar forte a 2026. Talvez exista algo para ser ajustado entre os grupos. Se existir, que se converse.
Talvez alguém tenha se sentido desprestigiado. Se ocorreu, que se dialogue. Política também é a arte de corrigir rotas. O que não parece justo é transformar assessores em donos do destino de uma candidatura e, ao mesmo tempo, responsabilizar Dorinha por decisões que não são formalmente tomadas por ela.
Joaquim Maia e Filipe Fernandes têm importância política. Mas Janad é maior do que dois cargos. E Dorinha também é maior do que um ruído de bastidor. No fim, 2026 não será decidido em uma portaria de exoneração. Será decidido nas urnas. E, até lá, Janad e Dorinha continuam de pé, com força própria, história própria e muito caminho político pela frente.