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R$ 1,8 milhão sem notas fiscais: empresas de Palmas ligadas a líder evangélico aparecem em contrato de Wi-Fi investigado em SP
Audaxia e BCS, atualmente Soberano, pertencem ao mesmo grupo econômico sediado em Palmas; documentos obtidos em investigação mostram transferências milionárias sem notas fiscais correspondentes, segundo reportagem do Metrópoles.
Duas empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico de Palmas, no Tocantins, aparecem no centro de uma investigação envolvendo aproximadamente R$ 1,8 milhão em transferências realizadas por uma empresa contratada para fornecer internet em comunidades da cidade de São Paulo.
Os valores foram revelados em documentos apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo e analisados pelo Metrópoles. As empresas que receberam os recursos são a Audaxia Serviços de Pagamento e a BCS Intermediações Ltda., atualmente denominada Soberano Sociedade de Crédito.
Segundo a apuração, as transferências chamaram atenção porque os maiores valores encontrados nos documentos aparecem por meio de comprovantes bancários, mas sem notas fiscais equivalentes que expliquem a origem dos serviços ou produtos relacionados aos pagamentos.
O dinheiro partiu da Favela Conectada, empresa que prestava serviços em um contrato destinado ao fornecimento de pontos de Wi-Fi na periferia de São Paulo. Os documentos mostram que, após receber uma transferência de R$ 2 milhões do Instituto Conhecer Brasil, no dia 7 de julho de 2025, a Favela Conectada começou a realizar pagamentos para empresas do grupo sediado em Palmas.
No dia 16 de julho, foram transferidos inicialmente R$ 60 mil para a Audaxia Serviços de Pagamento. Poucos minutos depois, outros R$ 250 mil foram enviados para a mesma empresa. Na sequência, houve uma transferência de R$ 500 mil para a BCS Intermediações Ltda.
No dia seguinte, mais R$ 500 mil foram destinados à Audaxia. Posteriormente, a BCS recebeu outros R$ 250 mil e mais R$ 63.277,37. Somados a outras movimentações identificadas na documentação, os repasses chegam a aproximadamente R$ 1,8 milhão. De acordo com a reportagem que revelou o caso, não foram localizadas, entre os documentos analisados, notas fiscais correspondentes aos principais pagamentos realizados para as duas empresas de Palmas.
A ausência das notas nos documentos apreendidos não significa, isoladamente, que os pagamentos sejam ilegais. Cabe às autoridades responsáveis pela investigação verificar a origem, finalidade e eventual prestação dos serviços relacionados às transferências. As empresas possuem ligação societária.
A BCS Intermediações Ltda., hoje denominada Soberano Sociedade de Crédito, tem entre os seus sócios João Paulo Morais Ferreira, José André da Costa e Marcos Halley Gomes da Silva. Já a Audaxia Serviços de Pagamento pertence a José André da Costa e à BRS Holding, que tem Marcos Halley Gomes da Silva como representante legal.
É neste ponto que aparece a ligação com o meio evangélico. Segundo os dados públicos citados na apuração, João Paulo Morais Ferreira foi presidente da organização religiosa Família do Amor Church, localizada em Valparaíso, Goiás. José André da Costa, por sua vez, consta como presidente da Igreja Aliança Evangélica PMW, organização religiosa sediada em Palmas, Tocantins.
Consulta cadastral pública confirma que a Igreja Aliança Evangélica PMW possui CNPJ ativo, foi aberta em fevereiro de 2023 e tem José André da Costa registrado como presidente. A instituição está registrada no Plano Diretor Sul da capital tocantinense. É importante esclarecer que a igreja citada nessa investigação não é a Paz Church de Palmas.
A Paz Church possui razão social Igreja da Paz de Palmas, CNPJ próprio e estrutura jurídica diferente. Não há, nas fontes consultadas pelo Diário Tocantinense para esta reportagem, informação ligando a Paz Church aos R$ 1,8 milhão transferidos para Audaxia e BCS. A reportagem original também chama atenção para a atuação comercial das empresas que receberam o dinheiro.
A Audaxia se apresentava nas redes sociais como uma plataforma destinada à comercialização de cursos pela internet. As publicações encontradas começaram em março de 2025 e terminaram em agosto daquele mesmo ano.
A BCS, utilizando o nome fantasia Soberano SCM, aparecia como uma plataforma financeira. A presença da empresa nas redes sociais teria ocorrido principalmente entre março e maio de 2025. Segundo o Metrópoles, as duas empresas já estavam sem atividade aparente em suas redes sociais no período em que receberam aproximadamente R$ 1,8 milhão da Favela Conectada.
Outro ponto levantado pela apuração envolve a natureza da atuação financeira da Soberano. Apesar de a empresa ter se apresentado como instituição ligada a pagamentos e serviços financeiros, a reportagem afirma que ela não possuía autorização do Banco Central para operar como instituição integrante do sistema financeiro nos moldes descritos.
Esse ponto também deverá ser analisado de acordo com a atividade efetivamente exercida pela empresa e com as regras regulatórias aplicáveis a cada modalidade de serviço. O caso se torna ainda mais relevante para o Tocantins porque Audaxia e BCS/Soberano possuem vínculos empresariais diretamente relacionados a Palmas.
A investigação, contudo, não afirma que a Igreja Aliança Evangélica PMW tenha recebido os R$ 1,8 milhão. A conexão descrita nos documentos ocorre porque José André da Costa, presidente da organização religiosa, possui participação nas empresas beneficiárias das transferências.
Da mesma maneira, a simples participação societária ou vínculo religioso não representa, por si só, comprovação da prática de qualquer crime. A investigação deverá esclarecer por qual razão foram realizados os pagamentos, quais serviços foram efetivamente prestados, se existe documentação fiscal correspondente em outros arquivos e qual foi o destino final dos recursos.
Os documentos que deram origem à apuração fazem parte de investigação relacionada à Favela Conectada e ao Instituto Conhecer Brasil. Entre os elementos analisados estão notas fiscais, comprovantes de transferências, despesas administrativas e contratos relacionados à implantação e manutenção dos pontos de internet.
Segundo a apuração, havia previsão de aproximadamente 2 mil pontos de internet, com valor mensal contratado de R$ 512,93 por ponto. Documentos encontrados indicariam que parte dos serviços utilizados pela empresa possuía custos menores, o que também passou a ser objeto de análise das autoridades. O episódio coloca empresas tocantinenses dentro de uma investigação que começou fora do estado, mas passou a ter uma ramificação direta na capital do Tocantins.
O Diário Tocantinense ressalta que não existe, até o momento, decisão judicial apresentada nas fontes consultadas que estabeleça responsabilidade criminal dos empresários ou das organizações religiosas mencionadas nesta reportagem.
O espaço permanece aberto para manifestações da Audaxia Serviços de Pagamento, da BCS/Soberano Sociedade de Crédito, de José André da Costa, de João Paulo Morais Ferreira, de Marcos Halley Gomes da Silva e da Igreja Aliança Evangélica PMW. Eventuais posicionamentos encaminhados ao Diário Tocantinense poderão ser acrescentados à matéria.