Editorial: Secom de Palmas precisa falar para a capital, mas também alcançar os quatro cantos do Tocantins
A comunicação pública de uma capital não pode se limitar ao perímetro administrativo onde o poder circula. Em um estado como o Tocantins, onde a política se organiza por redes regionais, influência municipal e percepção pública espalhada pelos 139 municípios, a Secretaria de Comunicação de Palmas precisa entender um ponto básico — e decisivo: quem fala apenas para a capital, fala menos do que imagina.
A crítica aqui não é pessoal. Não é dirigida ao prefeito Eduardo Siqueira Campos nem reduz o debate a nomes. A questão é institucional, estratégica e profundamente política. Palmas é a capital do Tocantins. E, exatamente por isso, sua comunicação não pode funcionar como se a cidade existisse isolada do restante do Estado. Se a gestão quer liderar narrativa, consolidar imagem administrativa, ampliar autoridade política e ocupar espaço no debate público, precisa fazer com que sua mensagem atravesse a Praça dos Girassóis e chegue, com clareza e constância, a Araguaína, Gurupi, Porto Nacional, Paraíso, Colinas, Guaraí, Dianópolis, Augustinópolis e aos pequenos municípios que moldam o humor real do Tocantins.
Esse não é um detalhe técnico. É uma escolha estratégica.
Palmas concentra poder institucional, sede administrativa, simbolismo político e peso econômico. A capital teve receita prevista de R$ 2,7 bilhões no orçamento de 2026, segundo a própria Prefeitura, um volume que mostra o tamanho da máquina pública e a dimensão da responsabilidade de comunicar bem. Ao mesmo tempo, o Tocantins tem 1,57 milhão de habitantes e 139 municípios, segundo dados oficiais de 2024, o que torna qualquer estratégia excessivamente “palmacêntrica” um erro de leitura territorial. Em outras palavras: a capital é o centro do poder, mas o estado é o espaço da repercussão.
E isso importa porque, no Tocantins, reputação política não é construída apenas dentro da capital. Ela se forma no rádio do interior, nos grupos de WhatsApp de lideranças locais, nas páginas regionais, nos portais de pequena e média audiência, nos programas matinais, nas entrevistas com sotaque local, na percepção dos prefeitos, dos vereadores, dos servidores, dos comerciantes, dos profissionais liberais e dos eleitores que nem sempre acompanham a rotina do Paço, mas sentem — e julgam — a capacidade de uma gestão de se fazer presente.
É exatamente aí que a Secom de Palmas precisa evoluir.
A Prefeitura já construiu instrumentos úteis e corretos do ponto de vista técnico. Desde 2022, a gestão criou canais como o Whats Palmas e a Agência Palmas, com o objetivo de facilitar o acesso da população a notícias, serviços e materiais de apoio para a imprensa. Foi um avanço. A própria administração registrou que a proposta nasceu da necessidade de ampliar o diálogo com o cidadão e facilitar o acesso a conteúdos públicos. Mas a existência de ferramenta não garante alcance. Ter canal não é o mesmo que ter capilaridade. Publicar não é o mesmo que repercutir. Distribuir conteúdo não é o mesmo que disputar narrativa.
E comunicação pública, especialmente em uma capital com ambição política, é exatamente isso: disputa de narrativa.
Se a Secom fala bem para os corredores do poder, mas fala pouco para o interior, ela cumpre parcialmente sua missão institucional e falha no objetivo político mais amplo. Porque a imagem de uma capital não é definida apenas pelo que ela diz de si mesma. Ela também é definida pelo que o interior escuta, interpreta e replica sobre ela. E, nesse ponto, Palmas ainda parece comunicar muitas vezes como se o Tocantins terminasse onde termina seu limite urbano.
Não termina.
Palmas, por definição, é uma cidade que precisa irradiar. E irradiar exige método.
Uma comunicação pública madura, em um estado de baixa densidade populacional e forte fragmentação territorial como o Tocantins, precisa operar em três camadas simultâneas. A primeira é a comunicação de serviço, voltada ao cidadão palmense: transporte, saúde, educação, infraestrutura, zeladoria, agenda, campanhas e atendimento. Essa é a obrigação básica. A segunda é a comunicação de imagem institucional, que mostra entregas, organiza reputação, humaniza a gestão e dá previsibilidade à ação pública. Mas existe uma terceira camada — e ela é a mais negligenciada quando o olhar é curto: a comunicação de alcance regional, que transforma ações locais em percepção estadual.
É essa terceira camada que separa uma Secom burocrática de uma Secom estratégica.
Quando Palmas anuncia uma obra, por exemplo, não deveria apenas informar o andamento físico do serviço. Deveria enquadrar a informação como referência de gestão urbana. Quando lança um programa social, não deveria apenas noticiar o ato administrativo. Deveria posicionar a capital como laboratório de política pública. Quando enfrenta um problema, não deveria apenas reagir ao desgaste. Deveria organizar a narrativa de resposta antes que a crítica regional a defina. Em um estado politicamente jovem, com disputas permanentes por protagonismo e herança administrativa, a comunicação da capital precisa aprender a falar em escala.
Isso exige abandonar um vício clássico de muitas assessorias públicas: a crença de que o site oficial, a rede social institucional e meia dúzia de repercussões locais bastam.
Não bastam.
O Tocantins ainda é um estado onde rádio, portal regional, programa de opinião, TV local, grupos segmentados e imprensa do interior continuam moldando humor político com enorme eficiência. Quem não ocupa esse ecossistema, perde espaço. Quem aparece só na capital, entrega o interior para a interpretação dos outros. E, na política, ser interpretado pelos outros quase sempre custa mais caro do que falar por si.
Por isso, a Secom de Palmas precisa sair do eixo confortável da comunicação centralizada e adotar uma lógica de presença regional permanente. Isso significa, na prática, algumas mudanças objetivas.
Primeiro: regionalizar pauta. Nem toda ação da prefeitura precisa ser vendida apenas como um fato administrativo da capital. Muitas delas podem — e devem — ser apresentadas como referência estadual, especialmente em áreas como mobilidade, urbanismo, tecnologia, zeladoria, educação, primeira infância, saúde básica, turismo, cultura e planejamento urbano.
Segundo: falar com a linguagem do interior. Isso não significa simplificar de forma rasa, mas traduzir. O interior quer entender por que uma decisão tomada em Palmas importa, como ela afeta o estado, que tipo de exemplo ela produz e qual mensagem ela transmite. A comunicação pública que fala apenas no dialeto técnico do gabinete é eficiente no PDF e ineficiente na vida real.
Terceiro: criar rotina de presença nos veículos regionais. Não apenas quando há crise. Não apenas quando há evento. Não apenas quando há agenda positiva. A Secom precisa abastecer com regularidade rádios, sites, colunistas, programas de opinião, podcasts, TVs locais e redes de influenciadores informativos do interior. Comunicação forte não aparece só quando precisa se defender. Comunicação forte constrói hábito de presença.
Quarto: ocupar a agenda pública antes da oposição e antes do boato. Em estados com forte circulação de bastidor, a narrativa vazia é sempre preenchida por alguém. Se a gestão não explica, alguém explica por ela. Se a gestão não contextualiza, alguém simplifica. Se a gestão não distribui sua versão, o interior recebe a versão mais barulhenta.
Quinto: entender que comunicação pública não é só marketing; é governabilidade simbólica. A cidade pode até entregar obras, organizar finanças, melhorar indicadores e avançar em áreas sensíveis. Mas, se isso não chega com inteligência ao interior, o capital político produzido por essas entregas fica subaproveitado.
Esse ponto é ainda mais importante porque a política tocantinense vive, desde já, um ambiente de pré-2026. E, goste-se ou não, toda capital em ano pré-eleitoral passa a ser observada também como plataforma de influência. Não se trata de pedir propaganda. Trata-se de reconhecer a realidade: uma gestão forte precisa ser percebida como forte. E percepção, em política, é sempre produto de comunicação.
A própria estrutura formal da Secretaria Municipal de Comunicação de Palmas mostra que sua missão não é pequena. Segundo a página oficial da Prefeitura, a Secom tem entre suas competências coordenar a política de comunicação social do Executivo, intermediar a relação do chefe do poder com a imprensa e promover a divulgação de programas, projetos e campanhas institucionais. Isso significa que o papel da pasta não é meramente operacional. Ela existe para organizar a voz pública da gestão. E a voz pública de uma capital, no Tocantins, precisa ecoar para além da capital.
Há um ponto que precisa ser dito com franqueza: Palmas não pode se comportar comunicacionalmente como uma prefeitura de médio porte voltada apenas ao seu território administrativo. A capital é observada como vitrine, parâmetro e símbolo. Quando se comunica mal, perde influência. Quando se comunica pouco, desperdiça protagonismo. Quando se comunica só para dentro, encolhe.
E esse encolhimento é silencioso. Ele não aparece apenas em crise de imagem. Ele aparece na ausência de repercussão espontânea, na dificuldade de emplacar agendas positivas fora da capital, na incapacidade de transformar ação local em referência estadual, na sensação de que a cidade administra, mas não lidera.
No Tocantins, liderar narrativas importa tanto quanto executar políticas.
É por isso que esta crítica precisa ser recebida como contribuição, e não como ataque. A Secom de Palmas ainda pode corrigir a rota. Tem estrutura, tem cidade, tem pauta, tem centralidade política, tem simbolismo institucional e tem um prefeito que, por trajetória e sobrenome, carrega peso histórico suficiente para gerar interesse muito além da capital. O que falta é transformar esse ativo em presença territorial organizada.
A capital precisa continuar falando para Palmas, evidentemente. Mas, se quiser ser percebida como centro real de poder, referência administrativa e voz influente no estado, precisa também falar para os quatro cantos do Tocantins.
Porque, no fim das contas, uma gestão que só se comunica com o próprio espelho corre o risco de parecer maior para si mesma do que realmente é para o restante do estado.
E, em política, esse é um erro que quase sempre cobra seu preço.