Análise DT | Além das câmeras: tensão, conselhos nos intervalos e movimentação de aliados marcam bastidores do debate no Tocantins

Análise DT | Além das câmeras: tensão, conselhos nos intervalos e movimentação de aliados marcam bastidores do debate no Tocantins
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 19 de agosto de 2026 12

Primeiro confronto reuniu os seis candidatos ao Palácio Araguaia em Palmas; investigação, saúde, demissões, experiência política e críticas à velha política elevaram a temperatura, enquanto equipes recalculavam estratégias a cada intervalo

O primeiro grande debate entre os candidatos ao Governo do Tocantins na eleição de 2026 começou com apresentações calculadas, ganhou temperatura com confrontos diretos e terminou deixando pistas importantes sobre o caminho que cada campanha pretende seguir até as urnas. Na noite desta terça-feira, 18 de agosto, Professora Dorinha (União Brasil), Vicentinho Júnior (PSDB), Laurez Moreira (PSD), Ataídes Oliveira (Novo), Professor Witer Naves (PSOL) e Du Pereira (DC) ficaram frente a frente em Palmas. O encontro foi realizado nos estúdios da Rede Hits FM/Record News, na 103 Norte, com transmissão também pela RedeTV! e cobertura dos veículos ligados à Avecom.

Na análise do Diário Tocantinense (DT), o debate teve duas atmosferas distintas. Diante das câmeras, principalmente no segundo bloco, apareceram acusações, provocações, respostas duras e pedidos de direito de resposta. Fora do ar, predominou a concentração: candidatos cercados por assessores, advogados e profissionais de comunicação, conversas rápidas nos intervalos e equipes tentando ajustar a estratégia para o bloco seguinte. Do lado de fora do estúdio, militantes transformaram a noite em uma prévia do clima das ruas.

O primeiro bloco serviu para que cada candidato dissesse ao eleitor quem era e qual imagem queria projetar. Professor Witer procurou apresentar uma candidatura identificada com renovação e destacou que vive no Tocantins desde 1995, além de enfatizar que esta é sua primeira disputa eleitoral. Vicentinho Júnior apostou na trajetória empresarial e política e colocou a geração de empregos entre suas credenciais. Du Pereira apresentou-se como empresário, defendeu propostas novas e ressaltou ter percorrido os 139 municípios tocantinenses.

Laurez Moreira explorou a própria origem, a experiência política e principalmente sua passagem pela Prefeitura de Gurupi como demonstração da capacidade administrativa que pretende levar ao Palácio Araguaia. Ataídes Oliveira, por outro lado, já sinalizou no início o tom que adotaria durante praticamente toda a noite: crítica pesada à estrutura política tradicional. Ele colocou corrupção, favores políticos e má gestão entre os problemas que pretende enfrentar.

Era apenas o aquecimento. Quando o segundo bloco abriu a possibilidade de os próprios candidatos escolherem adversários e temas, o debate mudou de tom.

Um dos momentos mais tensos colocou Ataídes Oliveira e Vicentinho Júnior frente a frente. Ataídes levou para o palco questionamentos relacionados à investigação da Operação Overclean e citou movimentações financeiras atribuídas a uma empresa ligada à esposa de Vicentinho. Também questionou a formação acadêmica do deputado. Vicentinho reagiu de maneira firme, disse não possuir condenação contra seu mandato, CPF ou nome e lançou publicamente o desafio de abandonar a candidatura caso algum adversário apresentasse condenação contra ele.

Ataídes respondeu destacando que havia falado em investigação, não em condenação, e voltou a cobrar explicações. Vicentinho então partiu para o ataque pessoal ao desempenho do adversário na pesquisa de sua biografia, acusando-o de fazer uma leitura incompleta de sua trajetória. O embate mostrou que o tema da investigação tende a continuar presente na campanha, embora Vicentinho não esteja entre os 25 indiciados pela Polícia Federal na etapa citada da Operação Overclean.

Depois da investigação, foi a vez da saúde pública colocar dois dos principais nomes da eleição frente a frente.

Vicentinho escolheu Professora Dorinha e questionou o que ela faria para mudar a situação da saúde estadual. Dorinha defendeu a aceleração das obras hospitalares em andamento, ampliação de cirurgias e exames, fortalecimento dos hospitais regionais, realização de concurso para profissionais da área e maior articulação entre Estado, municípios, União e iniciativa privada.

Vicentinho aproveitou a réplica para atingir diretamente a candidata, argumentando que hospitais aguardam conclusão há anos e apresentando propostas de novas estruturas e ampliações em diferentes regiões do Tocantins. Dorinha rebateu e afirmou que havia desinformação na colocação do adversário, além de defender ações da atual administração. O confronto evidenciou um dos desafios centrais da campanha da candidata: apresentar-se como projeto próprio de governo e, simultaneamente, responder pelas críticas dirigidas à gestão do governador Wanderlei Barbosa, seu principal aliado político.

Outro duelo que ganhou força envolveu Du Pereira e Laurez Moreira. Du levou para o palco as exonerações ocorridas durante os cerca de 90 dias em que Laurez comandou interinamente o Governo do Tocantins e perguntou se a política de desligamentos seria repetida caso ele fosse eleito.

Laurez não fugiu da comparação com sua passagem pelo Palácio Araguaia. Defendeu as medidas tomadas, destacou concurso público, valorização de servidores, medidas administrativas e disse que pretende reduzir a utilização política da máquina estadual. Também colocou o concurso como principal caminho para ingresso no serviço público.

Du Pereira contra-atacou ao afirmar que famílias perderam empregos e viveram momentos difíceis naquele período. A provocação foi além: disse que Laurez deveria repensar a postura caso fosse eleito, mas em seguida afirmou que isso não aconteceria porque ele próprio seria o próximo governador. Laurez classificou o adversário como mal informado e tentou devolver o golpe pela experiência, sustentando que governar o Tocantins exige preparação.

O confronto entre Professor Witer e Ataídes Oliveira seguiu por outro caminho. Witer questionou como Ataídes financiaria a promessa de construção de 50 escolas de tempo integral. Ataídes sustentou que o combate aos gastos decorrentes de corrupção, favorecimento político e má gestão abriria espaço para investimentos. Witer contestou a matemática, chamou atenção para o custo das unidades e questionou o modelo de financiamento. Ataídes manteve a proposta e respondeu que haveria recursos, mas reconheceu que professores, concursos e valorização profissional seriam desafios igualmente importantes.

Laurez e Witer também se enfrentaram sobre economia. Laurez questionou como reduzir a dependência do emprego público. Witer falou em emancipação econômica, geração de trabalho e renda. Laurez respondeu defendendo industrialização, empreendedorismo e cooperativismo, enquanto Witer argumentou que grandes investimentos somente chegam onde existem segurança jurídica, estabilidade e políticas adequadas de incentivo.

Dorinha, por sua vez, escolheu Du Pereira para discutir o desenvolvimento dos municípios menores. Du defendeu mais espaço para pequenos comerciantes e fornecedores locais nas compras governamentais. Dorinha argumentou que o desenvolvimento depende da integração entre Governo do Estado e municípios em áreas como educação, saúde e emprego. Foi então que Du voltou a mirar os políticos mais experientes e questionou o fato de candidatos com décadas de mandatos continuarem apresentando novas promessas a cada eleição.

O segundo bloco ainda terminaria com uma tensão adicional. Dorinha recebeu direito de resposta após considerar ofensivas declarações feitas por Ataídes. A candidata disse aceitar críticas, divergências e confronto de ideias, mas cobrou respeito. Também levou a discussão para a condição feminina e deixou claro que não aceitaria ataques que considerasse desrespeitosos. O episódio colocou Ataídes no centro de mais uma controvérsia da noite.

E foi justamente fora das câmeras que essa tensão teve um desdobramento curioso. Em um dos intervalos, Ataídes foi ouvido dizendo em voz alta: “eu não agredi ninguém”, ao reagir às acusações de ter ultrapassado o limite das críticas políticas.

Depois da temperatura elevada do segundo bloco, o terceiro foi bem mais técnico e menos explosivo. O formato estabeleceu temas específicos, sem confronto direto, réplica ou tréplica. Vicentinho recebeu infraestrutura e criticou a perda da conexão ferroviária prevista para Figueirópolis, além de cobrar planejamento de longo prazo para as rodovias estaduais. Du Pereira falou sobre meio ambiente e defendeu estrutura aérea para combater incêndios. Ataídes discutiu agronegócio, redução de impostos, logística e industrialização da produção tocantinense.

Dorinha recebeu economia e defendeu concessões e parcerias com a iniciativa privada quando forem capazes de acelerar investimentos, mas afirmou ser contrária ao aumento de impostos e taxas. Witer ficou com saúde e usou a própria experiência de espera por uma cirurgia eletiva para defender a descentralização do atendimento especializado. Laurez falou de segurança pública, prometeu concursos anuais para a Polícia Militar, aumento dos efetivos e utilização de tecnologia e vigilância eletrônica.

No quarto bloco, os jornalistas entraram diretamente no debate. Vicentinho, por exemplo, foi questionado sobre como financiaria seu plano de infraestrutura e quais rodovias realmente seriam prioridade durante quatro anos de governo. Ele apontou as TOs 020, 040 e 010 como eixos importantes e defendeu combinação de recursos estaduais, articulação com o Governo Federal, financiamentos e participação da iniciativa privada.

As considerações finais mostraram novamente as estratégias de cada campanha. Ataídes preferiu pedir que o eleitor investigasse a vida dos candidatos antes de decidir o voto, reforçando sua imagem de opositor da política tradicional. Laurez voltou à experiência administrativa e defendeu parceria institucional com o governo do presidente Lula. Dorinha destacou a necessidade de propostas possíveis de serem executadas, voltou à saúde, às desigualdades regionais e colocou o combate à violência contra a mulher entre suas prioridades.

Du Pereira usou seus minutos finais para apresentar propostas como uma estrutura de proteção à população idosa e redução do peso da tarifa de energia, além de insistir no discurso de renovação. Vicentinho voltou às 50 escolas, prometeu ampliar benefício destinado a estudantes e afirmou que acompanhará pessoalmente a saúde estadual — resumindo essa postura ao dizer que “a saúde, acreditem, é pauta pessoal”. Professor Witer encerrou tentando ocupar sozinho o campo ideológico da esquerda e colocando sua candidatura como alternativa ao que classificou como velha política.

Enquanto isso, nos intervalos…

Se diante das câmeras havia choque, nos bastidores predominavam silêncio, cálculo e orientação. Cada candidato tinha autorização para entrar acompanhado de quatro pessoas. Advogados, estrategistas, profissionais de comunicação e familiares integravam os pequenos núcleos que acompanhavam cada participação. Quando o sinal de intervalo era dado, começava uma segunda disputa: avaliar o bloco anterior, receber orientações e preparar a postura para o próximo.

Apesar das provocações públicas, não houve registro de confronto direto entre candidatos fora do ar. Os adversários chegaram a se cumprimentar, enquanto cada equipe permaneceu concentrada no próprio espaço. A diferença era perceptível entre a temperatura do palco e o comportamento nos bastidores: frases fortes diante das câmeras davam lugar a conversas reservadas assim que a transmissão entrava no intervalo.

Dorinha estava acompanhada, entre outros integrantes de sua equipe, pelo marido, Fernando Rezende, além das áreas jurídica e de comunicação. Vicentinho também chegou acompanhado da esposa e de integrantes dos setores jurídico e de comunicação de sua campanha.

A movimentação de aliados políticos também chamou atenção. Em um dos intervalos, o prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos, passou pelo estúdio, cumprimentou participantes e conversou rapidamente com Dorinha, candidata que apoia ao Governo do Estado. Mais próximo do encerramento, quem apareceu foi Amélio Cayres, presidente da Assembleia Legislativa e candidato a vice-governador na chapa de Vicentinho Júnior, que acompanhou os momentos finais.

Do lado de fora, a disputa já estava nas ruas

Se dentro do estúdio era possível controlar o relógio e organizar os blocos, do lado de fora a campanha tinha outra linguagem. Militantes de Dorinha, Vicentinho e Laurez se concentraram nas proximidades com bandeiras, músicas e manifestações de apoio. Em determinados momentos, o barulho das torcidas podia ser ouvido de dentro dos estúdios, principalmente quando seus candidatos ocupavam o microfone.

O movimento mostrou que o primeiro debate não terminaria quando as câmeras fossem desligadas.

Após o programa, Vicentinho Júnior foi até apoiadores concentrados no estacionamento lateral e discursou para o grupo. A cena simbolizou a passagem imediata do debate televisivo para a campanha de rua: terminou o confronto no estúdio e começou a tentativa de transformar cada resposta, cada provocação e cada imagem da noite em combustível político.

Para o DT, talvez esse seja o principal retrato deixado pelo primeiro encontro. Não houve um confronto permanente durante todas as horas de debate, mas ficaram definidos alguns territórios de disputa. Vicentinho deverá continuar sendo cobrado sobre investigações e, ao mesmo tempo, tentará transformar a saúde e a infraestrutura em instrumentos de ataque ao atual grupo político. Dorinha terá de defender avanços da administração que apoia enquanto constrói a identidade de um eventual governo próprio. Laurez continuará utilizando os 90 dias no Palácio Araguaia como credencial — e seus adversários usarão o mesmo período para cobrá-lo. Ataídes sinalizou que pretende manter o tom agressivo contra o sistema político. Du Pereira e Witer buscarão utilizar cada novo debate para ampliar conhecimento e furar o bloqueio dos candidatos mais conhecidos. Essa leitura decorre das estratégias exibidas neste primeiro confronto.

O debate terminou, mas deixou claro que a campanha efetivamente começou. Dentro do estúdio, propostas e farpas. Nos intervalos, estratégia. Na porta, militância. E, a partir de agora, cada frase dita diante das câmeras passa a fazer parte de uma disputa que vai muito além delas.

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